Publicado 01 de Março de 2021 - 19h05

Os chamados quartos de despejo seguem, sim, sendo uma boa caixa de surpresas. Principalmente se você entra num deles depois de muito tempo, e o faz impulsionado sabe-se lá por qual tipo de força. Isso aconteceu com ele certa tarde quando, após a limpeza do céu e do ambiente que o cercava por uma chuva, abriu a porta, até meio emperrada, do pequeno aposento nos fundos da casa.

Foi, imediatamente, tomado pelo cheiro não de mofo, mas de coisas antigas. Olhou para o chão imaginando que três, quatro baratas poderiam de repente passar, mas nada passou ou se corporificou, além do silêncio. Havia quadros encostados nas paredes, valises depositadas a um canto, livros empilhados numa prateleira, baú de tampa trabalhada na ilharga de mesa e, de repente, sobre ela, a surpresa: coberta por um pano, velha máquina de escrever Remington, portátil. Imediatamente se aproximou e, com mão quase trêmula, levantou o tecido protetor; verificando estar o equipamento em absoluto bom estado.

Pensou em abrir a janela, mas a luz que entrava pela porta era suficiente, e, além de tudo, vinha aureolada pelo bom aroma da terra úmida do pequeno jardim do lado de fora; sobre o qual, agora, pingava leve garoa. Puxou cadeira e sentou. Como não poderia deixar de ser, diante das teclas.

Ao passar os dedos sobre cada uma delas, emergiu na cabeça do homem um antigo poema de Guiseppe Ghiaroni intitulado A Máquina de Escrever, escrito muitos, muitos anos antes de elas serem substituídas pelos computadores. Nos versos, que são esplêndidos, o poeta, se dirigindo à própria mãe, pede: ...”se eu morrer de um repentino mal,/ Vende meus bens a bem dos meus credores”. Daí em diante vai enumerando, um a um, tudo o que poderia ser passado adiante, tais como velhas roupas, óculos, chapéus, gravatas, sapatos, fantasias de carnaval e, até, um dente de ouro. Acentua, contudo, que a única coisa que ela não poderia comercializar seria a máquina da escrever. Exatamente pelo fato de estar muito ligada à vida de escritor do proprietário que, nas teclas, batucou produção não só literária, ao falar de instantes marcantes. Ou seja, aquela máquina fora a mais fiel companheira; à qual confidenciava, através da escrita, suas mágoas e, também, alegrias. Ao final do poema ele reitera que o objeto deveria ficar eternamente no cantinho. E faz à mãe, transformada em fiel depositária, recomendação: “E nas noites de lua não te espantes/ Quando as teclas baterem devagar”...

Ali no quarto de despejo, após essas lembranças, o homem volta a acariciar as teclas da antiga Remington. Então, vagarosamente, também entraram no ambiente as recordações da linda Claudinha. Que, durante anos, fora seu grande e, como se dizia antigamente, imorredouro amor. Entre idas e vindas, ficaram juntos por vários anos. Até que um dia, por uma dessas circunstâncias que a vida arma, a moça, por questões de trabalho, precisou mudar de cidade. E, tendo isso acontecido, foi como se cada um, a seu lado, tivesse caído num abismo.

Assim ali, diante da máquina na qual, muitas vezes, mandara mensagens para Claudinha, resolveu que, a batucar nas teclas que acariciava, deveria enviar nova correspondência para ela. Abriu gaveta e achou laudas de papel. Imediatamente colocou uma folha e rolou, para fazer teste. A velha Remington, mesmo há muitos anos sem uso, funcionava perfeitamente. Começou: “Meu grande, meu inesquecível, meu eterno amor”. Daí se diluiu numa mensagem plena de lembranças para, ao final, propor: “Agora, finalmente, sei e sinto que poderemos ficar juntos eternamente”.

No dia seguinte, cedo, lá foi ele para o centro da cidade a fim de achar uma agência do Correio para postar a missiva. Encontrando no café, a um amigo que perguntou onde estava indo, respondeu, mostrando o envelope:

- Vou enviar isso aqui.

- Uma carta? – O outro arreglou os olhos – Isso não existe mais, meu.

- É o que você pensa – ele retrucou.

Feita a postagem, imediatamente começou a espera. Rapidamente inseriu, na sua rotina diária, a verificação, na caixa de correspondência junto ao portão, se alguma havia chegado. Mas passa-se um, dois, três dias, uma semana, e nada. Até que, quase um mês depois, quando nem mais aguardava, alguém grita, na porta:

- Correio!

Ele se precipita, ansioso, e o funcionário do DCT estava de pé, com algo na mão. Ele pega, sorridente, e se emociona ao reconhecer a letra de Claudinha no sobrescrito do envelope. Que preferiu ir abrir no quarto de despejo, diante da velha máquina. Só que, quando faz isso, encontra, dentro do que chegara o seu próprio envelope, selado, intacto: a moça devolvia sem ter lido.

No outro dia, lá estava ele procurando um antiquário amigo, perto do Mercadão.

- Te interessa – pergunta – uma Remington portátil dos anos 60, em ótimo estado?

- Claro, onde está?

- Ali, no meu carro. Vou pegar a volto já.

- E quanto você quer por ela?

- Nada. É um presente pra você.