Publicado 23 de Fevereiro de 2021 - 5h30

Ele ia passando de carro quando viu o barzinho. Simpatizou de cara, pois duas sibipirunas e um galhado oiti praticamente entravam no pequeno ambiente das mesas. Brecou. Voltou e entrou. Pronto, para solidificar o encanto a cerveja que pediu veio geladíssima, e o croquete que pegou na, se podemos assim chamar, vitrine, derreteu em sua boca. Como os que eram feitos por vovós d’outrora. Resolveu, como não morava longe, que ali voltaria.

Foi na segunda visita que sua atenção se prendeu à casa do outro lado da calçada do bar. De boa fachada com tijolos aparentes, jardim no entorno e espécie de pátio elevado para o qual se abria a porta. Para chegar ao portãozinho de ferro que dava para a rua, precisava descer uma escada.

O homem mesmo apareceu na quarta visita. Era idoso, mas não, ainda, como se dizia antigamente, caindo aos pedaços. Os cabelos estavam brancos, porém as pernas conduziam o corpo sem vacilos. O camarada veio e sentou numa cadeira branca, ao lado da porta. Ali ficou olhando o tempo, não a dar a impressão de que esperava algo. Mas sim que qualquer surpresa não seria capaz de assustá-lo. Perdia a vista pelos galhos das árvores próximas e pelo céu. Na maioria das vezes dando a impressão de que não mexia um só músculo do corpo. Estátua viva.

Assim foi que, na continuação dos dias, o frequentador do bar passou a ter no fulano da cadeira no outro da rua uma espécie de parceiro constante. Em algumas ocasiões, quando chegava, ele já estava lá. Em outras, o idoso demorava um pouco a aparecer. Mas vinha, como se com o nosso personagem tivesse encontro marcado. E lá ficava, horas, olhando o tempo. Certa manhã um sanhaço, azulíssimo e singelo sanhaço, pousou num galho, assim perto. O assistente, de sua mesa no bar, chegou a ter a impressão de que o passarinho logo iria para o ombro do homem da cadeira.

Mais de dois meses se passaram, sem nenhuma mudança naquela, digamos assim, geografia. Tanto que o frequentador do boteco achou que o idoso poderia, de alguma forma, aproveitar melhor o seu ócio. Lendo, por exemplo. Convenceu-se que o camarada, ao invés de apenas permanecer a olhar o tempo, poderia curtir uma história bem escrita. Quem sabe embebida d’amores. E aventuras.

Tendo feito viagem de duas semanas, a negócios, o frequentador do boteco, ao regressar, tratou de ir à sua pequena biblioteca para catar algo a fim de levar para o homem da cadeira. Escolheu, a dedo de quem pinçasse diamantes, o ótimo livro de poesias e crônicas O Tempo Todo, de Mauro Simon, e o esplêndido romance Carta para o Soldado 237, de Antônio de Pádua Báfero. “Tenho certeza – concluiu – que o bom amigo com quem nunca falei vai adorar”.

Assim foi que no dia seguinte, com os volumes numa sacola de supermercado, se dirigiu para o barzinho de todos os dias. Sentou, pediu cerveja e croquete. Fixou os olhos na cadeira, a espera do idoso. Só que o tempo regulamentar se escoou e o fulano não apareceu.

- Bom – nosso herói concluiu – não veio hoje porque deve estar com gripe. Mas virá amanhã.

Só que no outro dia a espera se repetiu, sem resultado. No outro e no outro também, o que o fez se dirigir ao dono do bar, a quem perguntou sobre o homem da cadeira.

- Ah, o seu Borges? – Ele murmura.

- Então – sorriu – o meu comparsa tem nome... Seu Borges!...

- Claro, nome e aventuras.

Surpreso ficou sabendo, então, que o seu pacato personagem de ficar apenas olhando o tempo tivera, na verdade, uma vida movimentadíssima. Ganhara dinheiro em garimpos na Amazônia profunda, fora criador de bois em fazendas imensas na Austrália e rodara o mundo em viagens amplas que envolviam cidades civilizadas e rincões escondidos.

- Sabe – o dono do bar pergunta – quem foi o único brasileiro que, sozinho, escalou o monte Kilimanjaro, na Tanzânia? Foi ele.

Com os livros que trouxera para presentear na mão, o freguês do bar estava perplexo. Acabou perguntando, com emoção no tom da voz:

- Mas o seu Borges morreu enquanto estive fora? Como é que foi?

- Não, não – veio a resposta – o seu Borges não morreu não, ele apenas foi embora com a Ferdinanda.

- Ferdinanda? Que Ferdinanda?

- A mulatinha que era empregada da casa já fazia algum tempo.

- Mulatinha? Mas daquelas que o Stanislaw Ponte Preta classificava como para 400 talheres?

- Não, talvez nem tanto. Mas para uns 399...

- E o seu Borges deixou a linda casa para trás sem ninguém dentro?

- É. Porque nesses dias em que você viajou ele enterrou a esposa...

- Não me diga que a matou pra ficar com a...

- Negativo. Infarto agudo do miocárdio.

- Assim, sem mais nem menos?

- Absolutamente. Segundo um neto que viu a cena, ao surpreende-lo aos beijos e abraços com a Ferdinanda, em plena copa...