Publicado 21 de Fevereiro de 2021 - 5h30

Parafraseando Drummond, confesso que alguns anos (até os dez) vivi em Guaraci; principalmente nasci em Guaraci. Como no poema drummondiano (Confidência do itabirano), a cidade de há muito se recolheu ao passado, apenas remanescendo sob a forma de uma fotografia – pendurada na parede da memória. Ou em imagens esparsas, impressões da infância distante, visuais ou sonoras: passeios bucólicos por sítios e fazendas dos arredores, barquinhos de papel nas enxurradas que após as chuvas corroíam as ruas sem calçamento, as cenas recolhidas no livro legado por meu irmão Paulo, Saudade de Guaraci.

De há muito a paisagem urbana se impôs, me subjugou, se introduziu em meus hábitos, irremediavelmente citadinos. Já não tenho como escapar da dependência do trânsito, dos shoppings, dos cinemas, cafés e restaurantes, das livrarias, do CCLA, da ACL, do Instituto Histórico. E não tenho como exorcizar essa paixão mórbida pelo centro deteriorado da cidade.

Porém, lá no fundo de meu ser, em algum recôndito recanto, apesar de todos os brilhos do espetáculo de luzes e sombras da metrópole, resiste um jeitão irremediavelmente caipira; é quando as agitações cosmopolitas de súbito me intimidam, ou quando ponho a tocar na vitrola O pé de ipê ou Mágoa de boiadeiro.

Na última vez em que me reuni aos primos numa fazenda próxima a Guaraci, a certa altura da noite, puseram-se a cantar os versos nostálgicos da Chalana, de Mário Zan, com o acompanhamento da sanfona de um deles: cantavam alto, com unção, com devoção, com alma (já se disse: cantar com alma significa nisso empenhar todo o corpo). Eu? Só escutava, calado; mas dentro de mim eu cantava muito mais alto.

É verdade que essa oposição cidade-campo assume tintas eruditas. Escolas literárias como o arcadismo e o romantismo celebraram a natureza; desde os albores do século vinte cresceu o fascínio, modernista, futurista, pelos temas urbanos. Ainda no século 16, Fray Luís de León louvava a ascese, “essa descansada vida de quem foge do mundanal ruído”; no século 19, Baudelaire, poeta da modernidade, nos antros e cantos (salve, mestre Amaral Lapa!) de Paris é que encontrava os temas para a sua escrita: era nos próprios meandros da cidade que buscava seu recolhimento pessoal.

E não se trata de um caso meu, individual, essa divisão entre o rural e o urbano: é um fenômeno coletivo, que alcança tantos que deixaram suas cidades do interior à procura do sucesso material nas grandes cidades, ainda que a custa do exílio. Quando retornam para suas casas nas metrópoles, ao final das férias ou feriados, vêm carregados de frutas, vasos de flores, ovos caipiras: pedaços amorosos extraídos da terra-mãe.

Meus ensaios de retorno a alguma origem no seio da terra não vão além do terreno do onírico e do simbólico. O Interior a que me recolho é o que guardo dentro de mim. Ou então me faço de monge copista da abadia medieval de que se disfarça meu apartamento.

Nos anos 1970 o publicitário Marcus Pereira, paulista de Anhembi, empreendeu uma extravagância, resolveu bancar o mapeamento e edição em discos da música praticada em todos os rincões do País. Nos volumes dedicados às regiões oeste e centro-oeste, está tudo lá: modas de viola, catiras, folias de reis. Na contracapa Pereira se reporta a uma crônica de Rubem Braga, onde este diz ser tal a sua emoção do interior que ele merecia ter nascido goiano. O que me fornece a deixa para terminar com outra paráfrase:

Eu mereci

Ter nascido em Guaraci.