Publicado 14 de Fevereiro de 2021 - 19h05

A Gargarejo Cia Teatral está em cartaz - com elenco majoritariamente negro - em São Paulo, com o musical Bertoleza, inspirado no livro O Cortiço, de Aluísio de Azevedo. no Sesc Belenzinho. O espetáculo fica em cartaz até 1º de março, com sessões às sextas e aos sábados, às 21h30, e aos domingos (e no dia 22 de fevereiro), às 18h30, no Sesc Belenzinho.

A companhia nasceu em Campinas, em 2014, reunindo diferentes especialidades artísticas em parceria com renomadas instituições da região, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Conservatório Carlos Gomes, a Estação Cultura, as Prefeituras de Campinas, Sumaré e Vinhedo, e o Lar dos Velhinhos de Campinas. A maior parte da equipe é periférica e conta com artistas de diversas áreas, como artes plásticas, dramaturgia, artes cênicas, direção, cenografia, musicalidade e produção.

O grupo foca em uma perspectiva étnico-racial que reflete sobre colonização versus identidade. A intenção é articular a vivência periférica na cena como protagonista na sociedade, resgatando a autoestima e recriando autoimagem.

Em 2015, o grupo iniciou uma pesquisa sobre O Cortiço, que resultou na microcena Bertoleza - uma pequena tragédia, ponto de partida para o processo de investigação. Em 2017, a companhia se estabeleceu na cidade de São Paulo e, durante este período, realiza diversas experimentações cênicas e musicais, propõe leituras, debates, rodas de conversa e apresentações das canções.

A montagem, com adaptação, direção e músicas de Anderson Claudir, conta a história do clássico naturalista de Aluísio de Azevedo, agora sob ponto de vista da Bertoleza, uma mulher negra que é tão importante para a construção do romance quanto o próprio João Romão, o protagonista original.

Na trama, o oportunista Romão propõe uma sociedade à escravizada Bertoleza, prometendo comprar a alforria dela. Eles começam uma nova vida juntos e constroem um pequeno patrimônio formado por um enorme cortiço, um armazém e uma pedreira.

Depois de acumular capital considerável, o ambicioso João Romão já não sabe mais como se tornar mais rico e poderoso. Envenenado pelo invejoso Botelho, ele decide se casar com Zulmira, a filha de Miranda um negociante português recentemente agraciado com o título de barão. Mas, para isso, precisa se livrar da amante Bertoleza, que trabalha de sol a sol para lutar pelo patrimônio que eles construíram juntos.

Para a companhia, o grande desafio foi fazer com que uma narrativa do século 19 questionasse e problematizasse as relações criadas nos dias de hoje. Por isso, o projeto iniciado em 2015 foi ganhando novos contornos. "Quisemos investigar uma identidade brasileira que vem da diáspora africana e pensar em como isso nos afeta artisticamente. Assim, podemos criar novos signos para essa geração e dar uma voz para essa terra periférica" , conta Claudir.

No processo, o coletivo procurou a força da figura de Bertoleza em outras mulheres negras brasileiras negligenciadas pela História. Durante a encenação, o elenco relembra as histórias dessas mulheres, como a vereadora Marielle Franco, militante da luta negra assassinada em março de 2018; a escritora Carolina Maria de Jesus, famosa pelo livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada; a jornalista e professora Antonieta de Barros, defensora da emancipação feminina que foi apagada dos livros de História; a escritora Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista brasileira; e a guerreira Dandara, que viveu e lutou no período colonial.

A protagonista dessa história é interpretada pela atriz campineira Lu Campos, e o elenco também tem como destaque Eduardo Silva (Botelho), que ficou famoso ao dar vida ao personagem Bongô, no Castelo Rá Tim Bum, e coleciona importantes prêmios teatrais como Mambembe, APCA, Apetesp, Moliére e Shell.

O time de intérpretes fica completo com Taciana Bastos (Zulmira), Bruno Silvério (João Romão) e pelos integrantes do coro Ananza Macedo, Cainã Naira, David Santoza, Gabriel Gameiro, Matheus França, Palomaris e Welton Santos. A direção musical é assinada por Eric Jorge; o dramaturgismo e a poesia, por Le Tícia Conde; e a coreografia, por Emílio Rogê.

Segundo o diretor, Bertoleza é uma personagem inspirada em tantas histórias de um povo que resiste às injustiças de uma lógica racista. “Sua história resiste ao tempo. Ela representa a força dessas inúmeras mulheres que sustentam a base do nosso País", afirma.

Para ele, o inescrupuloso Botelho também é bastante atual. "É a velha manipulação política, que não se preocupa com o povo e justifica suas incoerências sem a menor base social ou científica."

Para Lu Campos, interpretar Bertoleza tem um significado ainda mais profundo. No processo desde 2015, ela conta que vivenciou um chamado ancestral em 2017: suas antepassadas maternas lhe deram a missão de quebrar o ciclo de opressão vivenciado por sua família desde os tempos de escravidão. "Espero que as mulheres pretas se sintam bem representadas na peça e a partir disso, busquem seus lugares de protagonismo nos variados âmbitos da vida" , conta.

Para a atriz, estar nesse processo contribui para a sua expansão de consciência. Em busca de mais respostas sobre sua ancestralidade, ela também cursou a pós-graduação em Matriz Africana pela Facibra (Casa de Cultura Fazenda Roseira). "As pessoas precisam perceber quão rica e diversificada é a matriz africana, por isso ela deve ser resgatada e valorizada. Afinal, a África é o ventre do mundo" , diz emocionada.

Todas as sessões estão sempre esgotadas e a peça tem recebido boas críticas de veículos especializados.