Publicado 12 de Fevereiro de 2021 - 19h05

A arte é a forma mais bonita – e também, quem sabe, a mais eficaz – de expressar sentimentos e sensações. Em todas as suas línguas - poesia, música, artes visuais, dança, teatro... pode-se experimentar uma gama enorme de emoções. Olhando, por exemplo, para a canção popular brasileira, percebe-se nela a matéria propícia, maleável e inesgotável na construção da expressividade. E quanto mais talentoso e laborioso o compositor, seja em peças simples ou nas mais elaboradas, maior o encantamento e o êxtase que se pode provar.

A música instrumental também é capaz – e muito – de nos transportar para incontáveis lugares e provocar, exatamente pela ausência do texto, emoções surpreendentes e de uma forma muito especial. Em um primeiro momento, pode-se até pensar que seja mais difícil “dizer coisas” com a música quando não há o texto, e que, de outro lado, na canção, quando a música encontra na palavra a sua poderosa aliada, a expressividade possa ser alcançada mais facilmente. Tenho lá as minhas dúvidas, porque as palavras guardam muitas armadilhas, sendo uma delas, talvez a mais temida, a obviedade, o lugar comum (Manoel de Barros escreveu: “não gosto de palavra acostumada”). Porque a palavra é quem fala, explicita, define, e isso nem sempre é vantajoso, no fazer artístico. Por outro lado, ela é generosa e tem muitas faces: às vezes sugere, arranha e sussurra, e, em outras, grita e escancara... A canção traz a emoção branda ou intensa, que acende o desconhecido ou dialoga com a memória. Candura, tristeza, amor, saudade, raiva, alegria e indignação. E muito mais. Os sentimentos nascidos podem rapidamente crescer e percorrer nosso corpo, quando estamos entregues. Aqueles, ditos acima, e outros, como, por exemplo, a sensualidade, a sedução e o desejo sexual, o que, de novo, pode ser expresso de forma direta, ou trabalhado poética e musicalmente, com maestria, pelo compositor (e revigorado, muitas vezes, pelo intérprete).

Deixo aqui um apanhado de canções capturadas assim, de repente, da memória, e, se elas têm estilos parecidos e compositores que se repetem, é apenas porque a pesquisa se limitou à minha própria experiência e gosto pessoal. Claro que se poderia ir muito mais a fundo, sobretudo na diversidade.

Junto às lindezas que aqui seguem em trechos, a recomendação de que possam ser apreciadas e absorvidas inteiras, com o tempo necessário, o lugar aconchegado e em boa companhia, que pode bem ser a própria companhia!

Ele vai me iluminando,

Não me iluminando um atalho sequer

Sei que ele vai me guiando, guiando de mansinho

Pro caminho que eu quiser

Meu namorado, meu namorado

Minha morada é onde for morar você.

Pedra que lasca seu brilho

E que queima no lábio um quilate de mel

E que deixa na boca melante

Um gosto de língua no céu

Luz, talismã, misterioso cubanacã

Delícia sensual de maçã

Saborosa manhã

Vou te eleger, vou me despejar de prazer

Essa noite o que mais quero é ser

Mil e um pra você.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador

Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor

Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho

Um riacho de amor

Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo

Que eu sou professor.

O teu corpo moreno vai abrindo caminhos

Acelera meu peito e nem acredito no sonho que vejo

E seguimos dançando, um balanço malandro e tudo rodando (...)

Me abraça, me aperta

Me prende em tuas pernas

Me prende, me força, me roda, me encanta

Me enfeita num beijo.

O meu destino é caminhar assim

Desesperada e nua

Sabendo que no fim da noite serei tua

Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva

Acumulando de prazeres teu leito de viúva (...)

Vamos ceder enfim à tentação

Das nossas bocas cruas

E mergulhar no poço escuro de nós duas.

Eu quero me esconder debaixo

dessa sua saia, pra fugir do mundo

Pretendo também me embrenhar

no emaranhado desses seus cabelos

Preciso transfundir teu sangue

pro meu coração, que é tão vagabundo

Me deixa te trazer num dengo

pra num cafuné fazer os meus apelos.

Meu bem, você me dá água na boca

Vestindo fantasias, tirando a roupa.

A tua boca me dá água na boca

Ai que vontade de grudar uma na outra

E sugar bem devagar gota por gota

Beija-flor beijando a flor

ou borboleta (...)

A tua boca me dá água na boca

Ai que vontade de gritar

É uma bomba

Acho que vai rebentar, desgraça pouca

Azar, eu vou me matar na sua boca.

Quando caminho pela rua lado a lado com você

Me deixas louca

E quando escuto o som alegre do teu riso que me da tanta alegria

Me deixas louca.

O meu amor

Tem um jeito manso que é só seu

Que rouba os meus sentidos

Viola os meus ouvidos

Com tantos segredos lindos e indecentes

Depois brinca comigo

Ri do meu umbigo

E me crava os dentes, ai.

Meu bem

Esse teu corpo parece

Do jeito que ele me aquece

Amendoim torradinho

E a gente

Nesses teus braços, esquece

Do ponteirinho que desce

Só pra impedir teu carinho.

Se você crê em Deus

Erga as mãos para os céus

E agradeça

Quando me cobiçou

Sem querer acertou

Na cabeça

Eu sou sua alma gêmea