Publicado 09 de Fevereiro de 2021 - 5h30

Ele era importante, ocupou cargos de relevância que permitiriam, a alguém que fosse escrever sua biografia, rotula-lo como um “winner”. Ou seja, em bom português, vencedor. Mas essa criatura, essa figura notável tinha um sonho. Que, para se tornar realidade, ele tratou de se organizar desde cedo. É que herdara, entre outros bens de família razoavelmente abastada, uma bela gleba, algo como uns vinte alqueires, encravada num lindo vale na Serra da Mantiqueira. Onde, aliás, mantinha pequena casa. Ao redor cultivava singelo jardim que cuidava com mãos de fada. No terreiro, ciscavam galinhas, galos, pintinhos e perus. Na horta, pouco mais ao fundo, medravam verduras e legumes capazes de levar a orgasmos qualquer vegetariano. Mas a real joia da coroa da propriedade estava na baia, ou como lá se chame o local onde repousavam dois esplêndidos equinos da raça manga-larga. Se algum amigo visitante perguntasse o que ele faria após aposentar, apontava no rumo dos cavalos:

- Quando me transformarem em inativo montarei, aqui, o melhor haras do Estado de S. Paulo. Pois este sempre foi meu sonho.

Ora, amigos, de fato; assim que deixou de trabalhar o bom Myossa colocou mãos à obra. E em pouco tempo sua criação de mangas-largas, mesmo palpável nas cores da realidade, foi se tornando lendária. Houve momento em que um dos reprodutores, ao qual dera o nome de “Jucy”, tinha o semem disputado a tapas por criadores de várias partes do Brasil. E a figura do animal, imponente, soberana, exalava nobreza maior do que a exibida, em priscas eras, pelas montarias do rei inglês Henrique VIII. Tido e havido como exímio cavaleiro.

Pois bem, corre o tempo, com as implacabilidades que apenas o imponderável alimenta. Até que um dia, estando na progressista cidade de Campinas, Myossa mostrou, no celular, para um amigo, homem riquissimo, criatura importante, foto, em grande angular, feita pelo histórico repórter-fotográfico Neldo Cantanti, apresentando um detalhe do haras. Diante da imagem, o camarada exclamou:

- Santo Deus, preciso conhecer este fabuloso cartão postal.

- Ora – a resposta veio imediata – quando você quiser.

E, efetivamente, mais ou menos um mês depois a visita ocorreu. O abastado senhor chegou ao haras de manhã para, imediatamente, ir caindo de espanto em espanto. Primeiro por ter, na linha do horizonte, o recorte de montanhas contra o céu azulíssimo. Um pouco à esquerda, de formação rochosa austera porém com agradável perfil, descia impressionante língua d’água, a formar quase caudalosa cachoeira, cujas águas, batendo no chão, corriam, entre pedras e seixos; na marulhante realidade de um riacho absolutamente cristalino.

Na continuação, envolvido pelo cenário de magia que o cercava, o visitante finalmente foi levado ao local onde estavam os cavalos. Isso, aliás, era tudo que Myossa queria. Esperava que o amigo se extasiasse ante os exemplares da mais alta linhagem da raça. Foi mostrando alguns, aqui e ali; porém, deixara de propósito para exibir por último o imponente “Jucy”, garanhão por excelência, capaz de encantar e cobrir, num só dia, cinco, seis, dez éguas; sempre com apetite insaciável. Chegando, finalmente, diante dele, que estava sobre a relva num canto sombreado pela copa de imensa mangueira, Myossa se aproxima do animal com o visitante ao lado. Já na ilharga do bicho passa, com cuidado, a mão direita sobre o luzidio pelo muito bem cuidado. E tão enlevado e orgulhoso sentia-se no instante que, num primeiro momento, pareceu não ouvir a exclamação do amigo, a dizer:

- De fato, é um quadrúpede belíssimo!

Ao cair no real daquilo, porém, foi como se o proprietário do haras tivesse levado um murro na boca do estômago:

- Como disse? – Arfa.

Ao que, imediatamente, o outro repete:

- Disse que é um quadrúpede belíssimo. Nunca vi outro igual.

- Um o que belíssimo? – Myossa volta a arfar.

- Um quadrúpede. Como nunca vi tão lindo antes, na minha vida! Mas me diga uma coisa, se fosse vende-lo, quanto pediria?

- Ora – Myossa sorriu – o “Jucy” não está à venda. Mas como quero ampliar o haras, se me oferecerem 300 mil dólares por ele, levam.

Ficam calados alguns instantes; de repente, o visitante murmura:

- Eu sei de um criador, em Minas, que pagará os 300.000 pelo seu maravilhoso quadrúpede!

- Sabe?

- Sei sim. Posso oferecer?

Myossa não respondeu de pronto. Após mais algumas passadas sobre a relva, estanca. Para murmurar:

- Pode sim, pode oferecer. Mas quero merecer um pequeno favor seu.

- Qual?

- Nunca mais se refira ao meu cavalo como quadrúpede, pois é algo ofensivo.

- Não estou entendendo...

- É que, amigo, esse substantivo é normalmente empregado para se referir a um ex-presidente ladrão que foi até preso, e a um monte de ministros, deputados, senadores etc. Todos analfabetos. Se quiser se referir ao maravilhoso “Jucy” como, por exemplo, Equus, tal qual o nome da peça de Peter Shaffer, tá muito bem; já quadrúpede... Por favor, não!

- OK – o visitante respondeu, sorrindo – “cavalo sapiens”. Como diria a Dilma...

Myossa vendeu “Jucy” e comprou outro magnífico reprodutor, mais barato. Que batizou, solenemente, como “Bípede”.