Publicado 27 de Fevereiro de 2021 - 16h44

Por Da redação

A desempregada Juciane Nascimento dos Santos, de 30 anos: visitas frequentes ao Centro Público de Apoio ao Trabalhador em busca de recolocação

Diogo Zacarias/ Correio Popular

A desempregada Juciane Nascimento dos Santos, de 30 anos: visitas frequentes ao Centro Público de Apoio ao Trabalhador em busca de recolocação

As irmãs Juciane e Josélia Nascimento dos Santos, de 30 e 25 anos respectivamente, frequentam o prédio número 427 da Avenida Campos Salles, no Centro de Campinas, quase que diariamente. No local funciona o Centro Público de Apoio ao Trabalhador, o CPAT, destinado a divulgar as vagas de trabalho disponíveis na cidade. Desempregadas desde o ano passado, Juciane e Josélia fazem parte dos 108.662 campineiros que ficaram sem trabalho em 2020, segundo dados Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic). Os números apontam que o desemprego na cidade cresceu 31,85% em relação ao acumulado de 2019, quando foram registrados 82.413 trabalhadores sem emprego.

Josélia Nascimento dos Santos, de 25 anos, desempregada: “estou procurando emprego há um ano; estou topando qualquer vaga”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A pesquisa da Acic é realizada a partir do cruzamento de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) da Secretaria de Trabalho, bem como dos levantamentos referentes à População Economicamente Ativa (PEA) e à Mão de Ocupada de cada cidade. O número de desempregados na Região Metropolitana de Campinas (RMC), por sua vez, alcançou a marca de 285.184 mil trabalhadores em 2020, um aumento de 29,33% em relação ao acumulado de 2019 (220.505), segundo o levantamento. Para quem vive a dura realidade de procurar emprego, o sentimento é de que a situação está cada vez pior.

 

"Está muito difícil conseguir algum trabalho. Meu último emprego foi há um ano, em uma linha de produção de uma fábrica de sabonetes. Antes, não era assim. Não demorava tanto tempo para encontrar um trabalho", conta Juciane que diz acreditar que a pandemia é responsável pela falta de vagas. O levantamento Acic aponta que foram fechados em Campinas 918 postos de trabalho em dezembro de 2020, que correspondem ao saldo das 12,6 mil contratações e 13,5 mil demissões.

Na RMC, os dados mostram o fechamento de 3,1 mil vagas, diante das 28,9 mil admissões e 32 mil demissões, do último mês do ano. A partir desses dados, a Acic revela que o Índice de Desemprego na RMC, em 2020, ficou em 13,59% da População Economicamente Ativa da região. O percentual de desemprego apurado para Campinas foi maior: 14,42%. Para o economista da associação, Laerte Martins, os resultados mostram que a cidade sofreu mais os impactos da pandemia de covid-19.

"Você percebe pelos índices apurados que em Campinas o desemprego está maior, percentualmente, que na RMC. Isso se dá, a meu ver, porque a cidade teve um efeito mais ativo da pandemia em sua economia do que na região como um todo", destaca Martins, que lembra que o porte da economia de cada cidade também tem um peso. "Em Santa Bárbara D'Oeste, por exemplo, o índice de desemprego ficou em 8,44%. Isso ocorre porque a cidade tem uma potencialidade maior de mão de obra, uma vez que sua população total é de 194.390 habitantes, com uma População Economicamente Ativa de 135.741 trabalhadores", explica economista, que ressalta que o PEA leva em conta as pessoas entre 14 e 65 anos.

Campinas, segundo o levantamento da Acic, tem uma População Economicamente Ativa de 753.745 trabalhadores com uma população de 1.212.792 habitantes. Martins esclarece que o índice feito pela associação considera os dados sobre os empregos informais para se chegar efetivamente ao real número de desempregados de uma cidade. "Sempre é importante frisar que o Caged faz seu levantamento da mão de obra com base nos trabalhadores que têm carteira assinada. Mas sabemos que a realidade do mercado de trabalho hoje comporta diferentes formas de contratação, como os trabalhadores PJ [Pessoa Jurídica]. Então, você tem que compor todos esses trabalhadores para conseguir ver o tamanho do problema do desemprego", pondera o economista da Acic.

O IBGE divulgou ontem (26) os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. De acordo com o estudo, a taxa de informalidade foi 41% em 2019 e de 38,7% em 2020, o equivalente a 33,3 milhões de pessoas sem carteira assinada no Brasil. Já o número de trabalhadores por conta própria foi de 22,7 milhões. Os desalentados, que são as pessoas que desistiram de procurar trabalho, somaram 5,5 milhões, uma alta de 16,1% em relação a 2019.

Para quem ainda não desistiu de procurar emprego, como as irmãs Juciane e Josélia, qualquer vaga de trabalho seria um alento. "Está muito difícil, estou procurando emprego há um ano. Estou topando qualquer vaga, mesmo assim não consigo encontrar nada", aponta Josélia, que discorda da irmã quando o assunto é responsabilidade pela falta de emprego. "Essa situação toda é culpa do governo federal, que nada faz para melhorar as condições dos trabalhadores", finaliza.

RMC

A pesquisa da Acic apontou também que em nove das 20 cidades da RMC o número de trabalhadores informais supera os que possuem carteira assinada. Esse cenário se dá em quatro das cinco cidades com mais de 200 mil habitantes (Americana, Hortolândia, Indaiatuba e Sumaré). A única exceção é Campinas, que possui 344 mil trabalhadores formais e 300 mil informais, de acordo com o levantamento.

Para o professor titular de Sociologia do Trabalho da Unicamp, Ricardo Antunes, os resultados do desemprego e o número de trabalhadores informais são pontos importantes da "tragédia social que atinge o Brasil nos últimos cinco anos". De acordo com o docente, o país vive desde 2016 um processo de "clara crise econômica com traços recessivos", que se intensificou de "forma exponencialmente" com a pandemia de covid-19.

"Se já tínhamos em fevereiro de 2020 quase 40% dos trabalhadores do país na informalidade, que é um dado pré-pandêmico, o quadro se agravou na pandemia. Tanto é que em maio de 2020, o IBGE anunciou, entre as tantas informações que divulga, que estava havendo uma redução da informalidade decorrente do fato de que a informalidade também estava desempregando. Ou seja, é a tragédia dentro da tragédia", critica Antunes, que que aponta que a "precarização do trabalho" era algo que foi alertado antes mesmo de 2016.

O professor explica que a reforma trabalhista feita pelo governo Michel Temer estimulou a informalidade como a única forma de trabalho para muitos trabalhadores, o que, segundo ele, foi ainda mais intensificado com as políticas do governo de Jair Bolsonaro. "A tragédia social brasileira criou uma figura que não conhecíamos ainda bem. Que é a o trabalhador informal desempregado. Entretanto, qualquer estudioso sério, que faz pesquisa com critério científico, sabia que a tendência era, em um quadro de recessão mundial e recessão no Brasil, intensificadas brutalmente pela pandemia, de uma explosão do desemprego".

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