Publicado 26 de Fevereiro de 2021 - 14h27

Por Guilherme Ferraz/ Correio Popular

O mecânico Anderson Bento da Silva, morador da Ocupação Nelson Mandela, em seu barraco destruído pelo temporal: triste sina

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

O mecânico Anderson Bento da Silva, morador da Ocupação Nelson Mandela, em seu barraco destruído pelo temporal: triste sina

A forte chuva da tarde da última quarta-feira causou medo e prejuízos a 104 famílias (350 pessoas) da Ocupação Nelson Mandela, localizada em uma área rural de Campinas, nas imediações do Núcleo Residencial Nossa Senhora Aparecida.

Oito barracos foram destelhados, mas nenhum morador ficou ferido. Os estragos provocados pelo temporal representam mais um episódio de adversidade enfrentado pelos ocupantes daquela área.

Além de dificuldades financeiras, os moradores da ocupação tiveram que superar ao longo dos últimos anos desde ação de reintegração de posse até incêndio, como o ocorrido no final do ano passado. A coordenadora da Nelson Mandela, Thamires Batista Gomes Ramos, 29 anos, conta que os temporais de verão sempre causam sobressalto nos moradores. "A sensação é de aflição. Ou a água vem por baixo ou por cima. Infelizmente, alguns barracos não aguentam a força da chuva ou da enxurrada, e vai tudo embora porque o terreno é inclinado", descreve.

Thamires ressalta que a comunidade é muito unida e que nos momentos difíceis os menos afetados pelas chuvas socorrem os desabrigados. "Já passamos por essa situação muitas outras vezes e sempre é difícil. Nós nos mobilizamos para arrecadar roupas para as pessoas que estavam molhadas, além de cobertores e colchões. Também remanejamos os desabrigados para os barracos que não foram destruídos", acrescenta.

A diarista Maria Luiza Nunes Batista abriu a porta do seu barraco para os companheiros prejudicados pela água. "Chamei as famílias dos barracos atingidos para dormirem aqui em casa. Vi muita gente perdendo até comida. Isso é muito triste, porque são coisas que demoramos a conquistar. A água leva tudo e ainda traz ratos. Minhas coisas ficam dentro de um baú para a chuva não estragar", relata.

O açougueiro Valdo Laurindo de Souza, apesar de não ter tido o barraco danificado, estava levando a televisão que acabara de comprar para tentar consertar, pois o aparelho queimou por causa da queda de um raio. "Toda chuva é assim, o prejuízo sempre vem. Conseguimos com sacrifício, mas perdemos facilmente", lamenta. O casal formado pela desempregada Fabiana da Silva e pelo mecânico Anderson Bento da Silva teve o barraco parcialmente destelhado.

Fabiana sofreu um arranhão nas costas, pois assim que percebeu que as telhas não iriam suportar a chuva, se jogou para salvar seu bebê de dois meses. "Quando vi que o telhado ia cair, me joguei em cima do nenê e o telhado caiu nas minhas costas. Foi só um ralado, e graças a Deus nenhuma das crianças se feriu". Anderson conta que conseguiu emprego em uma oficina, mas teve que ligar para o novo patrão dizendo que não iria, pois teria que ficar em casa para arrumar os estragos. "Consegui um emprego e ia começar hoje, mas tive que ficar em casa para ajudar a minha esposa a limpar e consertar tudo".

Segundo Fabiana, a chuva de quarta-feira foi muito forte e assustou a família. "Vira e mexe, quando chove, faz um estrago ou outro, mas dessa vez foi muito forte. Levou muitas telhas e molhou tudo. Agora é limpar tudo e seguir em frente. Já coloquei um dos colchões ensopados para fora para secar e ainda tem outros para tirar, mas não sabemos se vai chover de novo ou não". Conforme a líder comunitária Thamires, algumas doações de maior valor, como madeiras e telhas, chegam por pessoas de fora da ocupação, principalmente pelo padre Carlos Roberto de Oliveira Jesus, da paróquia Nossa Senhora da Piedade, localizada no bairro Parque das Indústrias.

 

O padre diz que faz a função de intermediador. "A paróquia fica bem próxima da ocupação. Então, após a Arquidiocese de Campinas receber as doações, nós as levamos ao Mandela. Sou apenas uma ponte entre as pessoas que podem ajudar e a ocupação. Hoje (ontem) mesmo conseguimos os materiais para reconstruirmos os barracos do pessoal atingido", informa o religioso.

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Guilherme Ferraz/ Correio Popular