Publicado 26 de Fevereiro de 2021 - 11h00

Por Da redação

O assessor de comunicação, Bruno Davanço, mostra a foto da avó, Ida Moreira, que morreu aos 72 anos da covid-19; abaixo, a doméstica Iara Aparecida Almeida, infectada pelo filho

Diogo Zacarias/ Correio Popular

O assessor de comunicação, Bruno Davanço, mostra a foto da avó, Ida Moreira, que morreu aos 72 anos da covid-19; abaixo, a doméstica Iara Aparecida Almeida, infectada pelo filho

No momento em que a covid-19 completa um ano do primeiro caso no Estado, Campinas segue contabilizando seus mortos. Entre março de 2020, quando ocorreu o primeiro caso da doença na cidade, até ontem, 1.857 pessoas perderam a vida para a doença. Apenas nos últimos 14 dias, 21 pessoas morreram infectadas pelo coronavírus. Ao todo, Campinas registrou 69.042 casos de contaminação pela doença desde o início da pandemia.

A velocidade e a letalidade da covid na cidade ficam ainda mais estarrecedoras quando observados os números dos últimos meses. Do dia 15 de dezembro até ontem, ou seja, em dez semanas ou 73 dias, 431 mortes ocorreram. Isso corresponde a uma média de seis mortes a cada 24 horas na cidade, segundo os dados divulgados por meio do boletim epidemiológico da covid-19.

Para especialistas, a vacinação em massa é a estratégia mais indicada para conter a pandemia. No entanto, a disponibilidade de doses e a vontade política nas esferas federal, estadual e municipal no combate à doença parece não acompanhar o mesmo ritmo de perda de vidas nessa batalha contra o vírus.

E nessa 'guerra', a vida dos idosos têm sido as maiores sacrificadas. Conforme os números da Secretaria Municipal de Saúde, do total de mortos na cidade, 1.439 eram de pessoas acima de 60 anos, cerca de 80% do total de mortes registradas neste um ano de pandemia no Estado. A população de idosos nesta faixa etária em Campinas é estimada em 146.368 pessoas.

Entre essas centenas de vítimas está a dona Ida Moreira Davanço, que morreu aos 72 anos, no primeiro pico da pandemia em Campinas. Segundo o neto da vítima, o assessor de comunicação Bruno Davanço, 23 anos, a dona Ida ficou por 15 dias internada até falecer, período em que ele lembra como sendo muito doloroso.

"Era tudo muito recente ainda. Num primeiro momento não tinham uma identificação clara das infecções por covid-19. Ela fez exames, constatou a suspeita e depois já foi internada na área covid do hospital. A gente não podia ter contato.

Situação em que ninguém estava acostumado. Foi um momento em que se tinha ainda muitas incertezas sobre o vírus, sobre a transmissão e tudo mais", lembra.

Outro fato que marcou a tragédia, foi no momento do enterro. "Na ocasião do velório foi tudo com o caixão lacrado. Isso era muito novo também. Apenas uma pessoa era autorizada a fazer o reconhecimento do corpo e nada mais. Não tivemos a oportunidade de nos despedir. Foi tudo muito triste. Eu tinha uma relação muito bonita com a minha avó. Foi um processo doloroso", lamenta.

O relato do jornalista é semelhante ao de centenas de outros 'órfãos da covid' na cidade. Na família do ferroviário Leonardo Norberto, 36 anos, a experiência com o vírus quase foi devastadora. Ele conta que 'furou' a quarentena e acabou infectado, passando para a mãe, para a namorada e depois viu o pai perder a vida para a doença.

"Eu contraí a doença em maio. Passei mal os primeiros dias, fui piorando e acabei internado na UTI, onde fiquei por nove dias. Não precisou ser entubado, mas tive ventilação mecânica durante todo o período", disse.

Ele lembra sobre a correria dos enfermeiros e médicos, a qual chama de heróis, no enfrentamento da doença, e do cenário de guerra que presenciou durante todo o período de internação. "Havia muita gente entubada, uma correria que dava medo.

Tive muito medo de morrer, graças a Deus consegui sair de lá, mas passei o vírus para a minha mãe que precisou também ser internada, mas ficou menos tempo, por seis dias, e para minha namorada que ficou assintomática. Foi horrível", recorda.

Quando tudo parecia estar voltando ao "normal" para a família, o pai do ferroviário acabou também infectado pelo vírus ao visitar a família em novembro. "Foi uma luta de novo. Meu pai ficou 26 dias internado. Eram notícias de que vai melhorar depois vai piorar, até o dia em que falamos com ele pela última vez. Ele precisou ser sedado, pois tinha uma dor tremenda. Aí, quando ele ia ser entubado, acabou não resistindo às complicações da covid", disse.

A doméstica Iara Aparecida Almeida, de 55 anos, mãe de Leonardo, diz que só quem passou pela doença é que pode dizer o quanto é difícil. "Vivemos uma tragédia. É uma doença muito séria que infelizmente tem muita gente ainda achando que não vai acontecer", disse.

Ontem, a Escola Estadual 'Escritora Rachel de Queiroz', no Jardim Yeda, decretou luto pela morte de uma aluna de 13 anos. A adolescente que cursava o 8º ano do ensino fundamental não estava frequentando as aulas e morreu por complicações da covid-19.

Escrito por:

Da redação