Publicado 23 de Fevereiro de 2021 - 11h51

Por Mariana Camba/ Correio Popular

Enfermeira da Santa Casa de Campinas, com leitos de UTI exclusivos para pacientes de covid-19 ao fundo: capacidade de atendimento esgotada

Diogo Zacarias/ Correio Popular

Enfermeira da Santa Casa de Campinas, com leitos de UTI exclusivos para pacientes de covid-19 ao fundo: capacidade de atendimento esgotada

A Santa Casa de Campinas está com 100% dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) covid ocupados. O hospital contava até ontem com 37 leitos do gênero, sendo 17 deles de enfermaria. Hoje, o hospital colocará em operação mais sete leitos, o que totalizará 44, mas eles não deverão ser suficientes para atender à demanda crescente de pessoas contaminadas pela covid-19 na cidade. No final da tarde, um grupo de 21 pacientes aguardava internação na rede pública de saúde do município. 

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De acordo com o médico Murillo Antônio Moraes de Almeida, provedor da Santa Casa de Campinas, o aumento na demanda de casos da covid-19 começou durante as eleições de 2020. "Nós, que somos da área médica, não entendemos porque ocorreram as eleições no ano passado. Naquele momento, sabíamos o que estava acontecendo na Europa e nos Estados Unidos em pleno inverno. Naquele período, a pandemia piorou nesses locais, principalmente em território norte-americano devido o negacionismo da doença. Aqui, tivemos a eleição para prefeito e vereador, e isso movimentou muitas pessoas", observou.

"Começamos a sentir após o primeiro turno o aumento de pessoas contaminadas pela covid-19, e por consequência o número de internações. Em Campinas ainda tivemos o segundo turno. Logo depois veio o Natal e o Ano Novo. Lembrando que o reflexo é percebido entre 14 e 20 dias depois da infecção. Ou seja, a pressão dentro da panela aumentou. Agora, tivemos o Carnaval. Mesmo sem o ponto facultativo, foram observadas muitas aglomerações de pessoas em festas e comemorações. A panela de pressão estourou. Como consequência disso, vamos ver a piora desse cenário a partir da próxima semana", vaticinou.

Depois da eleição, o hospital registrou um aumento de 30% na demanda. Com o Natal e o Ano Novo esse número chegou a 70% nos atendimentos do pronto socorro. Depois do Carnaval a situação atingiu o seu ápice. O número de consultas aumentou 100%. "O lado positivo é que vacinamos vários profissionais da linha de frente, e parte dos idosos com mais de 90 anos. Esses profissionais precisam estar bem para conseguir trabalhar e atender quem necessita", pontuou.

O provedor da Santa Casa enfatiza que a situação da covid-19 vai piorar em Campinas. "Essas novas cepas circularam rapidamente por Manaus, causando caos na saúde. Hoje, o Rio Grande do Sul está em lockdown, sem vaga disponível. Daqui a pouco é o Estado de São Paulo. Até hoje (ontem) tínhamos mais de 20 pacientes precisando de leitos de UTI. Em paralelo, o hospital está com taxa de ocupação de 100%. Amanhã (hoje) abriremos mais sete leitos, mas quantos novos pacientes vão precisar desse atendimento? Serão mais dez, mais cinco? Não tem como a gente prever", ponderou.

A maioria dos 14 pacientes entubados na Santa Casa de Campinas tem 40 anos. O problema, de acordo com Almeida, é que essas pessoas contaminadas levam a doença para casa, o que contribui para a infecção dos idosos. Aliado a esse cenário, não há um movimento maciço de vacinações. "Não existe vacina pra tanta gente. Ainda precisamos pensar na segunda dose. Não vacinamos nem a metade dos idosos no município. O jovem está sendo contaminado porque não está preocupado. Assim contribui para a infecção de outras pessoas. É uma bola de neve, cada vez mais aumenta o número de contaminados. Para piorar, tem as novas cepas, que possuem uma taxa de transmissão até 70% maior que as anteriores", elencou o médico.

A ocupação dos leitos no hospital não se restringe aos destinados aos pacientes com covid. "Na Santa Casa há o setor de queimados que atende toda a região de Campinas, que está com 100% de ocupação. O número de queimados aumentou 60% por causa do uso do álcool na prevenção do coronavírus. É um efeito dominó. A situação como um todo estrangula o hospital, porque esses pacientes não ficam um ou dois dias e vão pra casa. Eles permanecem na Santa Casa por uma semana ou até dois meses. Os profissionais da saúde, seja enfermeiro, médico ou colaborador, estão esgotados. Muitos deles estão doentes e emocionalmente abalados", relatou Almeida.

Diante de tantos números alarmantes, o médico reforça que não há outra medida cabível sem ser o lockdown. "A situação é imprevisível e imponderável porque não sabemos o que vem amanhã. Acredito que a rede privada de UTI também esteja no seu limite, com mais de 85%, 90% de ocupação. Se tiver de 25 a 30 leitos de UTI disponíveis na rede privada inteira em Campinas, é muito. Em duas semanas essas vagas serão preenchidas. Acredito que até o próximo final de semana não teremos mais leitos. É necessário decretar o lockdown, tem que parar tudo. Ainda estamos no verão, mas o inverno já está aí, e até lá não teremos vacinado nem 10% da população. Se não decretarem o lockdown, muita gente vai morrer", projetou.

Com relação a vacina, Almeida afirma que as expectativas não são boas. "O município depende do Estado, que depende da Federação, que é quem comanda a distribuição das vacinas produzidas pela Fiocruz e pelo o Butantan. Há falta de informações com relação a isso. O Sudeste está sofrendo. Não tem vacina. São 43 milhões de pessoas no Estado de São Paulo, e até o momento chegaram 11 milhões de doses para o Brasil inteiro", ressaltou.

Para que o hospital ativasse os novos sete leitos de UTI covid, foi necessário manter a metade dos colaboradores que iriam tirar férias, e pedir aos que já saíram que retornassem, de acordo com o médico Murillo Almeida. "São quatro turnos em um leito de UTI covid, e uma equipe por turno. Em cada equipe trabalham cinco profissionais, entre médicos e enfermeiros. Todos precisam ser especialistas nessa função, e está em falta esse tipo de profissional no mercado. Recrutamos e contratamos médicos. Tem que ter esse alicerce pra fazer a engrenagem girar".

A Santa Casa Campinas é o hospital com o maior número de leitos covid na cidade. Se não fosse a instituição, o problema seria maior, assinalou o provedor. "Mas isso tem um custo grande, e temos um limite de recursos. No ano passado tivemos acesso às verbas parlamentares do governo estadual e municipal. Também montamos uma área que se chama Solidariedade, que conta com 17 leitos de enfermaria covid. Ela foi desenvolvida com doações de munícipes e empresas da cidade. O poder público estadual e federal não ajudou em nada. A Santa Casa foi o primeiro hospital de Campinas, e neste ano completa 150 anos. A entidade já passou por todas as epidemias. Febre amarela, gripe espanhola, meningite e agora a covid-19. Vamos continuar trabalhando e nos empenhando nessa batalha", garantiu.

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