Publicado 22 de Fevereiro de 2021 - 12h23

Por Raquel Valli/ Correio Popular

Paciente é avaliada por oftalmologista para ser encaminhada para a cirurgia de transplante da córnea, mas vai ter de aguardar na fila por mais tempo

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

Paciente é avaliada por oftalmologista para ser encaminhada para a cirurgia de transplante da córnea, mas vai ter de aguardar na fila por mais tempo

Um relatório da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos) mostra que até setembro de 2019, 10.995 brasileiros realizaram transplante de córnea. Porém, no mesmo período de 2020, último dado da associação, foram realizadas 4.807 cirurgias no País, uma redução de 210% em relação ao ano anterior.

Segundo a ABTO, até o mês de setembro a fila de espera para transplantes saltou de 10.825 pessoas em 2019 para 14.433 em 2020, um aumento de 33%. O Banco de Olhos da Unicamp atribui o atraso ao fato de o HC (Hospital de Clínicas) da Unicamp ter sido transformado numa unidade hospitalar de atendimento às vítimas da covid-19, o que provocou o adiamento de cirurgias consideradas eletivas (não urgentes); e à queda de 50% na doação de córneas já que em 2019 foram 124 doações contra 62 em 2020.

Para o oftalmologista do Instituto Penido Burnier, Leôncio Queiroz Neto, a pandemia pode aumentar ainda mais a deficiência visual por conta da menor captação de córnea pelos bancos de olhos. “Um estudo divulgado no final de janeiro na publicação científica, JAMA Ophthalmology da Associação Médica Americana (AMA) mostra que em um grupo de onze pessoas contaminadas pelo SARS-CoV-2, a córnea de seis (55%) apresentou o RNA gnômico do vírus. Quatro dessas mesmas córneas (67%) apresentaram RNA subgnômico”. Por isso, a recomendação é evitar a captação para transplante de pessoas com covid-19 ou recém contaminadas.

De acordo com o especialista, o ceratocone responde por 70% dos transplantes. A doença em geral aparece na adolescência e progressivamente torna a córnea, lente externa do olho, mais fina e fraca, fazendo com que ela tome o formato de um cone. Esta alteração compromete bastante a visão, explica, porque a luz penetra distorcida nos olhos e forma imagens desfocadas.

Outros sintomas da doença são: troca frequente do grau dos óculos, visão de halos noturnos, aversão à luz do sol, maior fadiga visual e olhos irritados. “O problema é que 85% de nossa interação com o meio ambiente depende da visão e no início o ceratocone pode ser confundido com astigmatismo por ter sintomas semelhantes”, afirma Queiroz Neto. Por isso, ele acredita que uma parcela maior da população pode estar com esta doença.

Ele diz que a demora para a realização dos transplantes de córnea deve aumentar.

“Nós temos um atraso no diagnóstico de ceratocone, atraso nos tratamentos e atraso na fila para transplantes que nós inclusive nem sabemos o tamanho que ela já está, pois o Estado de São Paulo dificilmente divulga esses números.”

A reportagem do Correio Popular procurou a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, responsável por organizar a fila de transplantes de córnea, para que nos informassem a quantidade atual de pessoas à espera da cirurgia, mas não fomos respondidos até o fechamento dessa matéria.

O oftalmologista alerta para uma possível demanda reprimida na fila de transplantes. “Lembro que em setembro de 2019 eram 14 mil pessoas na fila e que foram feitos 11 mil transplantes naquele ano. Mas a cada ano entram cerca de outras 11 mil pessoas na fila. Em 2020 entraram cinco mil, mas nós não sabemos qual é a demanda reprimida. Além dos transplantes não terem sido realizados, nós deveremos ter muita gente que deveria estar na fila, mas não está pela falta de atendimento”.

A administradora, Daiany Rafaela Rosa, de 34 anos, é uma dessas pessoas que ainda vai entrar na fila do transplante de córnea. Ela já está com o encaminhamento em mãos, mas por conta da pandemia ainda não deu entrada no processo. Ela tem ceratocone e conta que está preocupada com o avanço da doença. “É muito preocupante porque o ceratocone é uma doença que quanto mais ela se desenvolve, mais as dificuldades aumentam e pior é para o portador”.

Daiany expõe que o ceratocone traz muitos outros problemas para quem tem a doença, além da dificuldade de enxergar. “A nossa qualidade de vida é péssima.

Nem todos os portadores da doença têm condições de pagar mais de R$ 1.800,00 em lentes de contado, sendo que essas são as mais simples e dão a impressão de que você está com um cisco grande nos olhos e as melhores custam mais de R$ 4.000,00. Nós temos dificuldades de conseguir emprego, pois o ceratocone é um fator de exclusão e muitos de nós até desencadeamos depressão, que foi o meu caso”.

Ela conta que passou por momentos difíceis por conta da depressão. “Você fica mal porque não consegue um emprego, se sente incapaz porque têm dias que os olhos estão tão inchados que não consegue colocar as lentes, então não enxerga nada. Conheço pessoas que escolhem por qual olho vão enxergar, porque elas só têm uma lente”.

“Eu falo que o luxo de muitas pessoas é ter um Iphone, mas o nosso luxo é ter as lentes para poder enxergar e viver. Tenho uma lente boa porque uma empresária me ajudou pagando metade, mas imagina a vida das pessoas que não tem dinheiro para comprar as lentes. E mesmo assim já era para eu ter trocado as minhas lentes, porque a doença avançou, mas eu não tenho dinheiro”, conta a administradora que está desempregada.

Para Queiroz Neto, o portador de ceratocone que não tem lente de contato é muito prejudicado, pois a falta da lente aumenta a miopia e tem a qualidade da visão e, consequentemente a de vida, diminuídas. “As pessoas sem lente de contato não podem sair de casa. Sem a lente elas têm menos de 5% de visão e com a lente, 79% de visão”.

Para o oftalmologista a depressão pode ocorrer, pois o portador de ceratocone é um deficiente visual. “O cara não poder levantar da cama porque o olho está inflamado e ele não consegue colocar a lente, ele tem dificuldade de tirar e renovar a carteira de habilitação. Esses fatores causam insegurança e podem trazer a depressão”.

Tratamentos

Queiroz Neto afirma que na criança a evolução do ceratocone é mais rápida e que o diagnóstico precoce só pode ser feito por tomografia, exame de imagem que analisa a face interna e externa da córnea. A única terapia que interrompe a evolução é o crosslinking, mas só pode ser aplicado em córnea com espessura mínima de 400 micras. "Consiste na reticulação das fibras de colágeno que aumenta a resistência da córnea em até três vezes com aplicação de vitamina B2 (riboflavina), associada à radiação ultravioleta", explica.

Outro tratamento é o implante de anel intraestromal que aplana a curvatura da córnea e por isso facilita a adaptação da lente de contato. Queiroz Neto explica que quanto maior a protuberância da córnea, maior o desconforto para usar as lentes de contato, única forma de corrigir a refração nos casos moderados e avançados da doença. Para estas pessoas, é mais indicado o uso de lente escleral que invés de se apoiar na córnea se apoia na esclera, parte branca do olho, e por isso é bastante confortável.

Escrito por:

Raquel Valli/ Correio Popular