Publicado 19 de Fevereiro de 2021 - 14h41

Por Correio Popular

Homens trabalham na construção do reservatório do Rio Jaguari, entre os municípios de Campinas e Pedreira: investimento para aumentar a segurança hídrica

Ricardo Lima/ Correio Popular

Homens trabalham na construção do reservatório do Rio Jaguari, entre os municípios de Campinas e Pedreira: investimento para aumentar a segurança hídrica

A imagem do chão rachado dos reservatórios do Sistema Cantareira, completamente secos em 2014, ainda está viva na lembrança dos paulistas. Não é para menos, uma vez que, a pior estiagem dos últimos 90 anos, segundo o Consórcio PCJ, mostrou que a incidência de eventos climáticos extremos e o comportamento das chuvas têm impactado cada vez mais o abastecimento de água do Estado.

O Sistema Cantareira é formado por reservatórios estruturados pelos barramentos nos rios Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha, da Bacia do Rio Piracicaba e, pelo reservatório Paiva Castro, criado pelo barramento no Rio Juqueri, na bacia do Alto Tietê. Esse sistema contribui para o abastecimento das Bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí.

Desde a crise de 2014, por sua vez, o Sistema Cantareira e as Bacias PCJ não se recuperaram completamente e, por isso, o Consórcio PCJ, que reúne prefeituras e empresas de abastecimento, lançou na manhã de ontem a cartilha Influências do Clima no Sistema Cantareira: cenários para 2021.

O documento, que traz orientações para os administradores públicos e para a população, faz um alerta sobre a contínua queda do volume de chuvas, desde a crise hídrica, e apresenta as tendências climáticas para os próximos anos. A apresentação da cartilha contou com a participação do hidrólogo e professor da Unicamp, Antônio Carlos Zuffo, que explica que os eventos de 2014 obedecem a um clico.

"A crise hídrica de 2014 e início de 2015 foi bastante severa. Foram dois anos de poucas precipitações e, a partir da análise daquele e de outros períodos, percebemos que em média ocorre uma crise de estiagem a cada 11 anos. Se entendermos que existe um fenômeno cíclico e se essa médica de chuvas se repetir, há a possibilidade de vivermos uma nova crise hídrica entre 2025 e 2027", aponta Zuffo.

A previsão do hidrólogo está baseada nos dados climáticos coletados pelo Consórcio PCJ. As médias históricas de chuvas, nas regiões das Bacias PCJ, deveria ser de 1.544 milímetros por ano. Ocorre, no entanto, que somente em dois anos (2015 e 2016) foram registradas chuvas dentro da média esperada. Nos últimos quatro anos, por sua vez, foram registradas precipitações menores em 14% (2017), 20,5% (2018), 12,4% (2019) e 23,2% (2020).

Zuffo explica ainda que é preciso analisar dois importantes eventos climáticos que ocorrem no Oceano Pacífico, que impactam diretamente na possibilidade de chuvas no Brasil, o El Niño e a La Nina.

"Um indicador importante para se checar é se no ano vamos sofrer os efeitos do El Niño ou da La Nina, que correspondem ao aquecimento ou resfriamento das águas. É importante entender que o segundo provoca um período mais seco nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do Brasil. Com o El Niño é o oposto. As previsões de agosto eram de um efeito La Nina, no entanto", aponta o hidrólogo.

Com a redução no volume de chuvas, a necessidade de ações do poder público aumenta, tendo em vista a possibilidade de desabastecimento de água. Por conta disso, o coordenador de projetos do Comitê PCJ, José César Saad, conta que a cartilha contém "sugestões de medidas para o enfrentamento de possíveis crises hídricas e secas mais severas". Ainda de acordo com ele, o documento "traz orientações não só para prefeitos, como para a população em geral".

"Nós do Consórcio víamos trabalhando anualmente para analisar e avaliar o comportamento do Sistema Cantareira e das vazões dos rios. O que notamos é que a quantidade de água que chega ao Cantareira está diminuindo. Na década de 1980, a vazão média era de 47 metros cúbicos por segundo. Já na década de 2010 foi de apenas 25,48 metros cúbicos, uma queda sistemática", revela Saad que explica que as construções dos reservatórios de Pedreira, com previsão para o fim deste ano, e de Amparo, que tem conclusão prevista para o fim de 2022, vão fortalecer a disponibilidade de recursos hídricos na região.

"As obras no Rio Jaguari [PEDREIRA]e Rio Camanducaia [AMPARO]vão trazer mais segurança para as cidades da região. Por isso, é fundamental reforçar aos prefeitos eleitos, reeleitos e aos gestores a importância de um plano diretor que contemple a construção de reservatório municipais e construção de piscinões ecológicos, que minimizam os impactos das chuvas e ainda garantem a recarga do lençol freático", finaliza.

[INTERTITULO]Eleição

[/INTERTITULO]O Consórcio PCJ elegeu o seu presidente, na manhã de ontem. O prefeito de Limeira, Mario Celso Botion (PSD), foi eleito para presidir o Consórcio nos próximos anos.

O chefe do Executivo limeirense agradeceu os colegas e revelou que a prioridade será garantir a segurança do abastecimento dos municípios do consórcio. De acordo com Botion, "é preciso cuidar da sustentabilidade hídrica da nossa região. O Consórcio PCJ já vem fazendo isso há anos e, por isso, quero assegurar que esse excelente trabalho continue sendo feito", aponta o prefeito que acredita que o investimento de R$ 7 bilhões do Plano de Bacias PCJ será essencial para evitar os impactos de uma crise hídrica do Cantareira, por exemplo, no fornecimento de água das bacias da região.

Durante coletiva à imprensa, o prefeito destacou ainda a preocupação com a diminuição no volume de chuvas ao longo dos anos. Segundo Botion, as mudanças climáticas exigem ações preventivas das prefeituras.

"Nos últimos quatro anos tivemos uma perda na média de chuvas. Mas com gestão de recursos hídricos e recuperação da qualidade dos mananciais, podemos evitar um cenário de crise. Há, no entanto, um desafio maior que é a conscientização de todos sobre o uso responsável da água. Se não houver consciência, todas as ações são diminuídas", destaca Botion.

Parte dos investimentos citados pelo prefeito já estão em uso, segundo o secretário executivo do Consórcio PCJ, Francisco Lahoz, que foi reconduzido para o cargo pelo novo presidente. De acordo com Lahoz, R$ 740 milhões estão sendo investidos na construção dos reservatórios do Rio Jaguari, em Pedreira, e do Rio Camanducaia, em Amparo. "Essas obras em Amparo e Pedreira vão trazer uma segurança hídrica para a Região Metropolitana de Campinas".

Ainda na manhã de ontem, o presidente do Consórcio PCJ celebrou o lançamento da cartilha Influências do Clima no Sistema Cantareira: cenários para 2021. "A cartilha trabalha com linguagem fácil, clara e objetiva as informações sobre a grandeza dos problemas do Cantareira. É importante que todos saibam que problemas com as condições climáticas vão acontecer de tempo em tempo. E mesmo com um investimento da ordem de R$ 7 bilhões, se não houver um consumo consciente de água, as ações serão limitadas", finaliza.

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