Publicado 19 de Fevereiro de 2021 - 11h57

Por Rodrigo Piomonte/ Correio Popular

Aglomeração de passageiros em ônibus do sistema de transporte coletivo de Campinas: descaso do poder pùblico contribui para a disseminação da covid-19

Ricardo Lima/ Correio Popular

Aglomeração de passageiros em ônibus do sistema de transporte coletivo de Campinas: descaso do poder pùblico contribui para a disseminação da covid-19

Apesar do esforço da Prefeitura de Campinas em conter as aglomerações no município, dados do Sistema de Monitoramento Inteligente do Governo de São Paulo, que atualiza diariamente a adesão ao isolamento social no Estado, apontam a cidade entre as que apresentam os menores índices nesse aspecto. Atualmente, essa adesão está em 39%, índice inferior ao de municípios que já adotaram sistemas mais rígidos de distanciamento social para enfrentar atual momento da pandemia no Estado.

Indíce de ocupação de leitos é de 85,55%

Sanitaristas e epidemiologistas observam que o isolamento social é uma das medidas sanitárias mais eficazes para conter o avanço da covid-19. Esse tipo de iniciativa, porém, costuma enfrentar resistência por parte de setores econômicos, como já ocorreu com Campinas. Entre os municípios com índices de isolamento superiores ao de Campinas está Araraquara, onde foi decretado lockdown esta semana por causa do aumento significativo de pessoas infectadas e do esgotamento da capacidade de atendimento médico e hospitalar. Localizada no centro do Estado e com população estimada em 238 mil habitantes, o índice atual de adesão ao isolamento naquela cidade é de 41%, ou seja, maior que o de Campinas.

Tanto em Campinas como em Araraquara foi confirmada a circulação da nova variante do coronavírus brasileira, que possui maior capacidade de transmissão da covid-19. Ainda conforme os dados do Estado, Campinas iniciou o mês de fevereiro com uma adesão social em 34%. Depois de 13 dias, a taxa subiu para 39%, índice que permanecia até ontem. Araraquara começou o mês de fevereiro com um índice de 37%. Depois de 13 dias, subiu para 40%. Atualmente, está em 41%, mesma adesão verificada na cidade de São Paulo.

Para o professor Paulo da Silva, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o momento ainda não é de relaxamento das medidas de distanciamento social. O docente observa que se não fosse o número de pessoas que foram contaminadas e se recuperaram, estimado em 30% da população, a situação estaria fora de controle.

Para o especialista, os índices baixos de isolamento atuais acendem um sinal de alerta, pois podem representar impactos negativos daqui para frente, principalmente com a circulação das novas variantes do coronavírus e com os índices de contaminação em patamares elevados. "Estamos vendo uma queda na curva, mas essa curva está muito alta. Vemos os governos trabalharem pressionados entre controlar o avanço da doença e atender aos interesses dos agentes econômicos. Porém, o momento seria de se concentrar em não deixar mais pessoas ficarem doentes", analisou.

Com menos pessoas ficando doentes, pondera o docente, haveria menos óbitos e, com uma perspectiva de vacinação em massa, os índices de contaminação seriam reduzidos. "O ideal seria afrouxar as medidas de isolamento apenas com toda a população vacinada", acrescentou. Para Silva, decisões políticas focadas no aumento do número de leitos são complicadas do ponto de vista do controle do avanço da doença. "Quando vejo esse tipo de decisão, vejo uma aceitação dos números de doentes e de mortes. A gente começa a se convencer que essa é uma realidade normal. Em vez disso, poderíamos estar trabalhando para evitar que as pessoas ficassem doentes, mantendo as barreiras sanitárias de isolamento e uso de máscaras", pontuou.

Em Campinas, a Prefeitura anunciou anteontem o aumento no número de leitos de enfermaria após a rede pública alcançar uma taxa de ocupação de leitos de UTI próxima de sua capacidade. Até a possível instalação de um hospital de campanha foi cogitado pelo prefeito Dário Saadi (Republicanos). Medidas mais severas de isolamento social na cidade têm esbarrado na resistência de diversos setores econômicos, inclusive com protestos e afrouxamento por parte das autoridades.

Em contrapartida, a cidade registra o aumento da taxa de transmissão, que já chegou a 1,2, situação na qual um indivíduo infectado contamina duas pessoas e assim progressivamente. O número de óbitos também aumentou. A cidade contabiliza 1.756 vítimas fatais. Desse total, 1.439 eram idosos acima de 60 anos. A população de idosos em Campinas é estimada em 146 mil pessoas. Dessa forma, a covid-19 já vitimou 1% desse grupo no município.

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Rodrigo Piomonte/ Correio Popular