Publicado 15 de Fevereiro de 2021 - 17h04

Por Raquel Valli/ Correio Popular

Estudante vítima de depressão e ansiedade: “Eu já tinha o problema antes, mas o meu quadro se agravou bastante por causa da pandemia”

Diogo Zacarias/ Correio Popular

Estudante vítima de depressão e ansiedade: “Eu já tinha o problema antes, mas o meu quadro se agravou bastante por causa da pandemia”

A população brasileira não teve uma resposta psicológica positiva e adaptativa à pandemia e o aumento no número de casos de depressão, ansiedade e estresse evidencia isso, assim como o abuso do uso de alimentos, drogas ilícitas e medicamentos. Esses transtornos ainda poderão persistir e até se agravar, caso os devidos tratamentos são sejam realizados.

A constatação é de um estudo feito pela Universidade Estadual de São Paulo, que foi divulgado este mês, e cujo objetivo era investigar a capacidade de enfrentamento dos indivíduos na pandemia e como eles se ajustariam a situações de pressão.

"Eu já tinha depressão e ansiedade antes, mas o meu quadro se agravou bastante por causa da pandemia. Crises depressivas e de ansiedade ficaram mais comuns, acordar com falta de ar e suando frio era rotina. Eu não tinha um apoio psicológico, porém minha família me apoiou bastante. Eu realmente achava que o mundo ia acabar, era o fim da humanidade. Tinha que ficar longe das notícias por um tempo, pois mesmo sabendo que eu não podia fazer nada pra ajudar (além de usar máscaras etc), minhas doenças me faziam acreditar que eu estava sendo preguiçosa e que a culpa era minha", afirma uma estudante campineira, que tem 20 anos, e que preferiu ter a identidade preservada.

As estratégias de enfrentamento diante de um problema, que são os recursos utilizados pelas pessoas para enfrentá-los, podem ser positivas ou negativas. E, os resultados da pesquisa indicam que os dos brasileiros foram de fuga e evitação.

"Tais estratégias, geralmente, envolvem pessoas que imaginam possíveis soluções para um problema, sem, no entanto, tomar medidas para mudá-lo", afirma o neuropsicólogo Antônio de Pádua Serafim, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) - quem comandou o estudo.

Das 3 mil que responderam o questionário, 40,8% aumentaram o consumo de drogas ilícitas, de cigarros, medicamentos e alimentos, e quase metade dos participantes expressou ter tido sintomas de depressão (46,4%), ansiedade (39,7%) e estresse (42,2%).

Ainda de acordo com a pesquisa, existe ainda (dentro dessa amostra) um grupo ainda mais vulnerável: o das mulheres. Não se sabe, entretanto, porque elas foram as mais afetadas psicologicamente nessa fase. Mas, elas responderam por 40,5% dos sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresses analisados.

"Embora a pesquisa não tenha detalhado as razões que levaram as mulheres a terem maior sofrimento psíquico, a literatura médica vem mostrando que são elas que têm maiores impactos pelas condições sociais em que vivem, e a pandemia só acirrou essa situação", acrescenta o pesquisador.

Serafim ressalta que os achados são preliminares, retratam um momento vivido pelos brasileiros e que a magnitude dos impactos na saúde mental só poderá ser mais bem conhecida com estudos contínuos após o relaxamento total da quarentena. No entanto, o estudo levantou um alarme para os serviços públicos de saúde, que devem estar preparados para o aumento no número de casos de doenças mentais.

O Estudo

A pesquisa foi realizada de 22 de maio a 5 de junho de 2020 com homens e mulheres dos 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal. Ouviu três mil voluntários, e o resultado foi publicado na revista científica Plos One, sob o título "Exploratory study on the psychological impacto for covid-19 on the general Brazilian population".

A avaliação dos sintomas psicológicos foi feita utilizando uma escala chamada DASS-21, que possibilita verificar prevalências de sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

Causa

De acordo com o médico Eduardo Teixeira, chefe do serviço de psiquiatria do Hospital PUC-Campinas, no geral, houve um aumento de mais de 50% de casos de depressão e ansiedade. E, um dos principais motivos, segundo o especialista, foi a duração das crises (sanitárias, financeiras etc), que até hoje não acabaram.

"O que a gente percebeu neste ano é que o ser humano geralmente está preparado para lidar com estresse agudo. Ele reage e se prepara para passar por aquela fase específica. Mas, durante a pandemia, o problema continuou, persistiu, sem uma previsão de acabar. E, quando estava pra acabar, alguém anunciava que iria continuar. Só que o ser humano não é preparado fisiologicamente pra lidar com esse estresse crônico e constante. E esse é um fato muito sério e importante. Esse fator foi realmente uma agravante dramática na vida daqueles que têm alguma predisposição a doenças mentais".

Tratamento

A psicóloga comportamental-cognitiva Ana Flávia Lima aponta que todas as circunstâncias estressantes geradas pela pandemia podem ser gatilhos que detonem ou agravem doenças mentais.

"É um período delicado, e acredito que a gente nunca tenha passado por algo igual. A gente tá vivendo uma época com muito medo, isolamento social, que pra uns é muito difícil, e incertezas quanto ao dia de amanhã. A pandemia trouxe a crise econômica que desestabilizou muitas famílias, muitas empresas, muitos restaurantes, muitos negócios. Muitos pais de família perderam o emprego, e não sabem como vão pagar as contas do mês. O isolamento social também gerou um grande sofrimento porque há muitas pessoas que moram sozinhas, e que se sentiram muito mais sozinhas. E também o medo de se contaminar e de ficar doente, que é muito grande", exemplifica.

A especialista lembra, entretanto, que "tanto a ansiedade, quanto a depressão, têm tratamento, que são, entre outros, medicamentos e psicoterapia". Ressalta também que é preciso procurá-lo porque através dele o paciente retomará a qualidade de vida tida antes.

Escrito por:

Raquel Valli/ Correio Popular