Publicado 05 de Fevereiro de 2021 - 14h55

Por Raquel Valli/ Correio Popular

Senhor Alceu e alguns dos c?es que ele adestra ou leva diariamente para passear: ?cachorro n?o ? brinquedo e precisa de carinho?

Importação

Senhor Alceu e alguns dos c?es que ele adestra ou leva diariamente para passear: ?cachorro n?o ? brinquedo e precisa de carinho?

Qual é o cachorro mais difícil de educar? O "encantador de cães" Alceu Belarmino Fernandes, de 80 anos de idade e 60 de profissão, responde a pergunta: "é aquele que não tem dono". Conhecido entre seus clientes como senhor Alceu, o veterano e experiente adestrador de cachorros explica que, muitas vezes a pessoa tem dinheiro, tem condições de cuidar bem e de se dedicar ao animal, mas compra um filhote e leva pra casa como se fosse um objeto. "Esse tipo de tratamento, sem carinho, não cria convivência entre o dono e o bichinho", define.

Fernandes conta qual é o segredo para conquistar um cachorro: "é agradar e não judiar". Por isso, o adestrador diz ser capaz de ganhar a amizade de qualquer cão facilmente. No início dos anos 60, o melhor amigo dos animais deixou sua terra natal, Cafelândia, no Interior de São Paulo, e veio para Campinas para trabalhar na Bosch. Na empresa, teve contato com estrangeiros que estavam fundando a Sociedade Campineira de Cães Pastores Alemães, entidade que existe até hoje.

As reuniões do grupo ocorriam na Lagoa do Taquaral, e Fernandes se interessou tanto pelo assunto que aprendeu o ofício de adestrar cães. Naquele tempo, a Polícia Militar (PM) era o único local onde se podia exercer essa atividade em Campinas. Aos poucos, Fernandes se tornou o primeiro adestrador civil da cidade. Viajou o Brasil exercendo o ofício e ganhando troféus.

Foi diretor da Sociedade de Cães Pastores e há mais de 30 anos trabalha como adestrador autônomo, sobretudo nas regiões dos bairros Nova Campinas e Gramado, onde reside a maioria dos seus clientes. Fernandes afirma ser capaz de educar qualquer tipo de cachorro, de pitbull a vira-lata, mas não esconde a sua preferência pelos cães da raça pastor alemão. "É o melhor cachorro que existe", sentencia, sem medo de ser parcial.

Fernandes explica que sua preferência pelos cães desta raça nasceu por causa do caráter do animal, considerado por ele como excelente. "Se você preparar um pastor para matar um bandido, dois minutos depois, com a boca ainda suja de sangue, ele é capaz de brincar com uma criancinha. Por isso, é difícil achar um cachorro que o supere. A polícia o usou por muito tempo. Foi utilizado também em guerras e nas Forças Armadas. Por um bom tempo, eu mesmo os treinei em uma das unidades do Exército em Campinas, a 11ª Brigada de Infantaria Leve, a Brigada Anhanguera", recorda.

Fernandes conta, ainda, que a maioria de seus clientes inicia o adestramento aos seis meses de idade do animal e o mantém em treinamento até o final de sua vida. "Quando um cachorro tá pronto, eu falo com o dono para parar o adestramento. Mas, os clientes sempre falam: 'não, de jeito nenhum'", .

Indispensável

A aposentada Maria Helena Guimarães Fraga, cliente do senhor Alceu, como ela gosta de chamar o adestrador, tem hoje dez cachorros. Ela conta que no passado chegou a cuidar de 16 cães. "Senhor Alceu está comigo há mais de 20 anos. Ele vem todo dia para caminhar com os meus cães. Sem o trabalho dele, não sei como me viraria", reconhece. Oriunda do Rio de Janeiro, a aposentada conheceu o adestrador logo que se mudou para Campinas. "Desde criança eu tenho mania de cachorro. Mas, no Rio de Janeiro, eu morava em apartamento, e naquela época não podia ter animais no condomínio. Mas o meu marido veio transferido para a IBM, e então ele disse: 'agora você pode ter os cachorros que quiser'".

Quase todos os dez animais de Maria Helena são adotados, e a protetora faz um apelo: "se não tiver disponibilidade para cuidar, não adote, muito menos compre. E nunca os abandone na rua e nem na estrada". Senhor Alceu ainda engrossa o coro: "é isso mesmo, cachorro não é brinquedo".

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Raquel Valli/ Correio Popular