Publicado 04 de Fevereiro de 2021 - 14h35

Por Guilherme Ferraz/ Correio Popular

Integrantes da comunidade Jongo Dito Ribeiro d?o as m?os numa corrente de uni?o e prote??o espiritual contra os sucessivos ataques ao patrim?nio da Casa de Cultura Fazenda Roseira, em Campinas

Importação

Integrantes da comunidade Jongo Dito Ribeiro d?o as m?os numa corrente de uni?o e prote??o espiritual contra os sucessivos ataques ao patrim?nio da Casa de Cultura Fazenda Roseira, em Campinas

A Casa de Cultura Fazenda Roseira, tradicional centro de manifestação da cultura afro-brasileira em Campinas, tem sido alvo de intolerância religiosa com seguidas invasões e depredações do patrimônio físico e cultural. A entidade abriga a comunidade Jongo Dito Ribeiro e outros grupos, movimentos sociais e religiosos de matriz africana. Desde agosto de 2020, foram registrados seis boletins de ocorrência sobre atos de vilipêndio à Casa de Cultura.

Integrantes e frequentadores da comunidade Jongo Dito Ribeiro afirmam que o vandalismo contra a instituição é motivado por preconceito à cultura e à manifestação afro-brasileira, na medida em que livros são encontrados rasgados, instrumentos musicais quebrados e objetos religiosos sagrados são atirados ao chão. Nos últimos anos, têm aumentado os casos de intolerância contra religiões de matriz africana em todo o País.

Os invasores destruíram câmeras, alarmes, pias, fogão e portas que, segundo as gestoras do local, já foram trocados inúmeras vezes por meio da colaboração e doações feitas pelos amigos da organização. As ameaças contra o Centro de Cultura são agravadas pela falta de iluminação externa e o mato alto no entorno.

Os administradores da comunidade Jongo Dito Ribeiro imputam à Prefeitura de Campinas o abandono da manutenção e da preservação. Porém, um impasse entre a Secretaria de Cultura e a associação sobre quem seria responsável pela administração do imóvel, atrasa um possível programa de reuperação e proteção do centro cultural. A demora obrigou os usuários da casa a fazerem vigília no local desde 18 de janeiro.

Foi nessa data que, durante a semana do Combate à Intolerância Religiosa, invasores depredaram elementos do patrimônio cultural material e imaterial abrigados na Casa de Cultura Fazenda Roseira.

A gestora da Fazenda Roseira, Flávia Tamiris, disse que é muito triste ver o patrimônio do Jongo Dito Ribeiro ser perdido. E questiona os ataques de intolerância. "O sentimento é de decepção. Não são quaisquer bens materiais, ali é nossa casa, é o que nós temos de mais precioso. Pra que rasgar nossos livros? Ver toda nossa história no chão é triste demais. Aqui é um lugar de luta e resistência".

Outra gestora da Fazenda Roseira, Bianca Lúcia, reclama que tenta conversar com a Prefeitura, sem sucesso. Segundo ela, uma reunião agendada com a Secretaria de Cultura foi cancelada uma hora antes do encontro. "Se passaram 14 dias de confinamento (vigília na casa), sem nenhuma resposta da Prefeitura sobre o retorno da segurança noturna, corte do mato e tampouco sobre a iluminação que nos foi furtada".

Administração

A Prefeitura e os gestores do Jongo Dito Ribeiro não se entendem sobre quem seria o responsável pela administração do espaço. Pelo lado da associação, Bianca defende que a manutenção da casa deveria ser compartilhada com o Município, porque mesmo com a concessão de uso do local expedida em 2015, a área continua sendo pública.

"A Prefeitura arca com a água, luz e internet, mas ainda é pouco. Nosso espaço é muito valioso, organizamos muitas atividades culturais e educacionais para a sociedade de Campinas e região, mas estamos vulneráveis".

Ela conta que entre 2017 e 2018, a Fazenda Roseira tinha um segurança pago pela Prefeitura, mas que esse serviço foi encerrado. "Há mais de quatro anos pedimos a reposição do segurança, são nove meses pedindo corte de mato e mais de seis boletins de ocorrência".

Bianca afirma que a administração do Jongo Dito Ribeiro precisa de ação efetiva e duradoura do Poder Público. "Precisamos acabar com essa vigília. Queremos voltar para nossas casas com a tranquilidade de que o bem do povo campineiro esteja seguro".

Outro lado

A Secretaria de Cultura informou que se solidariza com a situação, mas destaca que a gestão da Fazenda Roseira está a cargo do Jongo Dito Ribeiro, conforme Decreto Municipal 18.785 de 8 de julho de 2015, quando a Prefeitura cedeu a área à instituição, que é responsável pela gestão e manutenção do local.

A Prefeitura também informou que a administração do Jongo Dito Ribeiro é livre para utilizar a área de mais de 15 mil m² para fins comerciais e que a gestão é quem deve arcar com os ônus e bônus da fazenda.

Sobre os furtos, a Secretaria Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública, declarou que intensificou as rondas preventivas da Guarda Municipal de Campinas na região.

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Guilherme Ferraz/ Correio Popular