Publicado 26 de Fevereiro de 2021 - 11h20

Por AFP

A organização internacional Human Rights Watch (HRW) acusou o Exército do Camarões, nesta sexta-feira (26), de novos abusos contra a população civil na área anglófona, alvo de um sangrento conflito separatista.

"Ao menos 20 mulheres - entre elas quatro com deficiência - foram estupradas, um homem foi assassinado, e outros 35 foram detidos" em 1o de março de 2020, em um ataque à aldeia de Ebam, na região de língua inglesa, escreveu a HRW em um relatório condenatório.

O ataque é "um dos piores realizados pelo Exército do Camarões", que, por quase quatro anos, opôs-se aos grupos armados separatistas nas duas regiões ocidentais habitadas principalmente pela minoria anglófona do país, segundo a ONG.

Alguns soldados capturaram homens, e outros participaram de agressões sexuais contra mulheres. A HRW também afirma que um homem de 34 anos foi assassinado pelos soldados em uma floresta perto de Ebam.

Testemunhas disseram que mais de 50 soldados entraram a pé em Ebam durante a noite, em represália contra civis suspeitos de cooperar com os combatentes separatistas.

"Cinco soldados com máscaras entraram em minha casa (...). Um deles abusou de mim", declarou uma mulher de 40 anos, citada pela HRW.

"Ele me disse: "se você não se deitar comigo, eu te mato". Eu estava muito assustada para dizer, ou fazer, algo", acrescentou, explicando que depois se refugiou na montanha durante dois meses.

Nenhuma das vítimas de estupro entrevistadas recebeu atendimento médico após a agressão, em parte devido ao custo do tratamento e também pelo medo da estigmatização e da rejeição.

A ONG também afirmou que os soldados levaram ao menos 36 homens para uma base militar, "onde foram agredidos várias vezes, espancamentos que equivaliam a tortura".

O ataque não teve nenhuma repercussão durante um ano, em parte devido ao medo de represálias que desencoraja as vítimas da violência sexual a denunciarem, o que sugere que essas agressões provavelmente são muito mais numerosas do que os casos registrados, segundo a ONG.

"Este ataque é muito emblemático do que está acontecendo no Camarões anglófono", declarou à AFP Ilaria Allegrozzi, pesquisadora da HRW para o Camarões.

"O estupro foi usado pelos soldados para castigar a população por acolher os separatistas. E isso não é nada novo. Eles operam com impunidade", afirmou.

"Hoje em dia, os ataques dos separatistas contra os postos militares, por um lado, e os abusos das forças de segurança, por outro, ocorrem quase diariamente. Os civis estão presos no fogo cruzado e vivem com medo", disse.

Além dos frequentes ataques e atentados contra a polícia e os soldados, os separatistas armados intensificam os sequestros de civis, principalmente nas escolas, e assassinam os habitantes que acusam de "colaborar" com o governo.

Este conflito provocou mais de 3.500 mortes e obrigou mais de 700.000 pessoas a abandonarem suas casas.

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