Publicado 25 de Fevereiro de 2021 - 15h30

Por AFP

Diversos "grupos de interesse" da União Europeia usam o meio ambiente como "pretexto" para atrasar a ratificação do acordo comercial com o Mercosul, afirmou à AFP o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo.

Após a assinatura do acordo em 2019, que encerrou 20 anos de negociações, alguns países "de repente se dão conta que haverá alguns interesses afetados, e acho que esses grupos de interesse tomam esse tema do meio ambiente como algo que pode ser usado para retardar esse acordo", observou Araújo em entrevista em Brasília.

"Antes era algo que se imaginava que talvez nunca ficasse pronto, então isso (o meio ambiente) não suscitava esse tipo de preocupação", afirma.

"E não digo que não seja legítima a preocupação com o meio ambiente", acrescentou.

Araújo explicou que o acordo "afeta interesses no Brasil também" e citou o setor vinícola, por exemplo.

"O Brasil fez sacrifícios para acomodar esse setor, e que é um setor de enorme interesse da França de de outros países europeus. Argentina também (o fez), que é um grade produtor, assim como o Uruguai", disse.

A ratificação do acordo ficou estagnada entre os 27 membros da UE - incluindo França e Alemanha - principalmente devido a preocupações sobre o desmatamento da Floresta Amazônica, que não para de bater recordes desde que Jair Bolsonaro chegou ao poder, há dois anos.

"É muito importante desmitificar que o acordo Mercosul-UE contribuiria para a destruição da Amazônia, de forma nenhuma, e estamos prontos a mostrar que não é o caso", ressaltou Araújo.

Para desbloquear a aprovação do acordo que incluiria um mercado de mais de 750 milhões de pessoas, a UE propôs no último mês uma declaração conjunta complementar ao acordo com compromissos de sustentabilidade ambiental, incluindo a redução do desmatamento na Amazônia.

"Nós concordamos em princípio que haja algum tipo de compromisso adicional, porque nós não queremos reabrir o que já está fechado no acordo (...). É importante que seja algo com caráter de reciprocidade, que sejam compromissos válidos para as duas partes, porque não é só o Brasil que tem compromissos ambientais", declarou Araújo.

O presidente francês, Emmanuel Macron, é o maior crítico entre os líderes europeus por causa do aumento dramático das queimadas na Amazônia em 2019, causadas em grande parte pelo avanço do desmatamento e da agropecuária.

Em janeiro, Macron afirmou que a dependência da Europa da soja brasileira "está na base do desmatamento da Amazônia".

Bolsonaro o acusou de falar "bobagem", e seu vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou que o presidente europeu repete "os interesses protecionistas dos fazendeiros franceses".

Araújo defende que "desde o começo das conversações, nos anos 1990, havia muita resistência da parte francesa à abertura das negociações".

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