Publicado 25 de Fevereiro de 2021 - 9h32

Por AFP

Ele está sentado em frente a uma xícara de chá em um campo para pessoas deslocadas no norte de Moçambique. O barraco não é dele, Idrisse Cachimo chegou ali depois de fugir de ataques jihadistas. Seis meses depois, deseja apenas voltar para casa.

Idrisse é uma das 670 mil pessoas que deixaram tudo para trás para escapar da sangrenta insurreição que dilacera a estratégica província de Cabo Delgado, rica em gás natural.

"Preferia morrer a continuar o sofrimento que vivo aqui", diz com firmeza este homem de 61 anos, que viu sua esposa ser levada pelos rebeldes.

Os grupos armados que juraram lealdade ao Estado Islâmico (EI) semeiam o terror há mais de três anos no norte do país, incendiando vilarejos, executando homens e sequestrando as jovens.

"Podem cobrir a casa de zinco ou comprar um avião para mim, mas a única coisa que desejo é retornar para a minha casa", repete Idrisse, pensando nas duas casas que tinha, sua fazenda, suas cabras.

De seu abrigo feito de varas de bambu e barro, ele observa veículos partindo todos os dias em direção à sua antiga aldeia de Macomia, tristemente famosa por ser alvo de violentos ataques.

Lá, dois anos antes, os insurgentes cortaram a cabeça de um homem, antes de queimá-la e deixá-la exposta no mercado. Foi a primeira de uma longa série de decapitações.

Nos acampamentos de deslocados circulam boatos de que alguns voltaram para suas casas. Mas a região ainda está ocupada por insurgentes.

Depois de atingir um pico no ano passado, os ataques diminuíram recentemente. No entanto, o conflito não terminou, alerta o governo.

Cerca de vinte novos campos de deslocados foram montados em aldeias, longe da violência. Mas não é suficiente. Apenas 50.000 pessoas encontraram um lugar, em condições muitas vezes difíceis.

No acampamento de Ntocota, a 45 km de Pemba, capital de Cabo Delgado, as famílias recebem uma ração de 40 litros de água por dia. "Isso não é suficiente", lamenta o chefe da aldeia, Ntaguiha Camale.

Cerca de 1.060 pessoas deslocadas vivem ali. Não há escola, nem banheiros. Os moradores devem fazer suas necessidades fora.

O hospital mais próximo fica a uma hora de carro. Os doentes são transportados em motocicletas que funcionam como ambulâncias.

"Quando alguém adoece, o povoado paga para comprar quatro litros de gasolina" para a viagem, explica o chefe local.

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