Publicado 25 de Fevereiro de 2021 - 7h50

Por Estadão Conteúdo

"Você pode matar o revolucionário, mas não a revolução", dizia Fred Hampton, o jovem líder dos Panteras Negras em Illinois. Mais de 50 anos depois, é provável que muita gente só conheça o personagem da Marvel e não a organização homônima, mas a frase ainda ecoa, como mostraram os milhões de pessoas nas ruas em plena pandemia protestando contra a brutalidade policial - a mesma bandeira do Partido dos Panteras Negras, fundado em 1966 por Bobby Seale e Huey P. Newton.

Mas o revolucionário foi, sim, assassinado, em dezembro de 1969, aos 21 anos. Em junho daquele ano, o diretor do FBI J. Edgar Hoover tinha declarado que os Panteras Negras eram a maior ameaça à segurança interna dos Estados Unidos. O FBI perseguiu implacavelmente a organização, prendendo e matando seus membros. E colou nos Panteras Negras a imagem de terroristas violentos.

O filme Judas e o Messias Negro, que estreia nesta quinta nos cinemas brasileiros e concorre a dois Globos de Ouro no domingo, procura oferecer outra perspectiva sobre a organização. "Sabemos que de 60% a 70% dos artigos sobre os Panteras Negras entre as décadas de 1960 e 1980 foram escritos pelo FBI. Eram pura propaganda", disse o diretor Shaka King em entrevista ao Estadão.

Sua missão era oferecer uma visão que descreve como mais holística do Partido dos Panteras Negras, para além dos radicais de jaqueta de couro e boina que erguiam o punho cerrado. "O que era realmente radical era que eles queriam prover o direito à vida, a liberdade e a busca da autorrealização nas comunidades onde moravam", afirmou o diretor. E, se defendiam o uso da 2ª Emenda da Constituição americana de portar e usar armas, entrando em confrontos sangrentos com a polícia, também ofereciam escola, assistência médica e café da manhã gratuito para milhares de crianças.

Mas como um diretor jovem, em seu segundo longa, consegue fazer um filme de alcance mais amplo, que pudesse ser visto por milhões de pessoas e, quem sabe, concorrer a prêmios, bancado por um dos maiores estúdios de Hollywood, a Warner Bros. Pictures, sobre um revolucionário negro abertamente socialista e que foi assassinado por quem normalmente costuma ser o mocinho da história, o FBI? Era preciso um Cavalo de Troia.

Filme foca no traidor dos Panteras

É verdade que Judas e o Messias Negro tem como produtor o agora poderoso Ryan Coogler, diretor do Pantera Negra da Marvel. Ainda assim, fosse uma biografia clássica, o filme teria menos chance de ser realizado. A solução encontrada foi apostar numa estrutura clássica de thriller policial à la Os Infiltrados (2006), de Martin Scorsese.

O personagem principal não é exatamente Fred Hampton (Daniel Kaluuya), o "Messias Negro" que Hoover tanto temia, mas sim o "Judas" William O’Neal (LaKeith Stanfield), contratado como informante para fugir de uma pena por roubo de carro e por se passar por um agente do FBI.

O’Neal se infiltrou na célula do partido em Chicago e chegou a ser chefe da segurança. Foi ele quem deu ao FBI o mapa do apartamento e drogou Hampton na noite do assassinato - algo que negou até a morte -, sob o comando do agente Roy Mitchell (Jesse Plemons). "Para mim, a melhor maneira de mostrar quem Fred Hampton era é espelhá-lo com quem ele não era", disse Shaka King. "Focar em O’Neal ajuda a focar em Hampton." Para o cineasta, são dois opostos. Um era corajoso e o outro, covarde. Hampton era socialista e O’Neal, capitalista. Um estava interessado no coletivo - a Coalizão Arco-Íris, formada por Hampton, reunia os Panteras Negras com outros grupos negros, latinos e de brancos pobres -, enquanto o outro se preocupava só consigo mesmo.

Quando recebeu o roteiro, Stanfield achou incrível. "Pensei: essa não é uma história já vista, e mal posso esperar para fazer o Fred Hampton", disse ao Estadão. Os planos do diretor eram outros, e o ator de Atlanta hesitou por um tempo antes de topar o papel de O’Neal. Depois de refletir, viu que era uma oportunidade única. "Eu sabia que ia oferecer uma visão mais próxima da realidade sobre os Panteras Negras, que foram vítimas de muita propaganda", lembrou Stanfield. "Eles eram muito jovens, não eram um partido perfeito, mas estavam longe de ser uma organização terrorista."

LaKeith Stanford teve de se despir dos julgamentos para poder fazer O’Neal. Shaka King enxerga o "traidor" de maneira nuançada. "Ele não passou a ser uma vítima apenas quando foi preso. Era desde que nasceu num mundo que lhe dizia: Você precisa desejar aquilo lá, mas só vamos lhe dar isso aqui. No fim, somos todos vítimas da natureza sedutora do capitalismo. Precisamos questionar isso." O ator concorda, mas também acredita que O’Neal era responsável por suas decisões. "Ele só pensou em sobreviver e causou muito mal", afirmou sobre O’Neal, que morreu num acidente de carro em 1990 - sua morte foi considerada suicídio.

Para o inglês Daniel Kaluuya, fazer Judas e o Messias Negro vinha com uma série de outras questões. O ator, que tinha lido bastante ao longo da vida sobre os Panteras Negras, sentia grande responsabilidade de interpretar Fred Hampton de maneira correta. Uma pressão extra foi a participação ativa da namorada de Fred Hampton, a ativista Akua Njeri (na época, usando seu nome de batismo, Deborah Johnson), e do filho dos dois, Fred Hampton Jr. "Esse papel me fez focar e procurar ir mais fundo, trabalhar mais duro e de forma mais inteligente. E, para falar a verdade, eles me ajudaram muito", disse o ator ao Estadão. Kaluuya passou um tempo em Chicago e no subúrbio onde Hampton cresceu e começou seu ativismo.

O diretor vê razão para ter algum otimismo de que as coisas podem estar mudando - e uma das provas é o filme em si. "Como Fred Hampton Jr. diz, os poros políticos das pessoas estão abertos como não estavam fazia muito tempo", acrescentou King. "Deve haver alguma razão para uma produção sobre um revolucionário socialista negro ser feita agora, financiada por um dos estúdios mais poderosos de Hollywood. Me parece que está vindo na hora certa."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

Estadão Conteúdo