Publicado 24 de Fevereiro de 2021 - 9h40

Por AFP

A crise de saúde, as terríveis perspectivas econômicas e os escândalos de corrupção geraram no Chipre um sentimento de "frustração generalizada", com protestos em massa e até mesmo um episódio incomum de repressão policial na ilha mediterrânea.

"O clima é bastante explosivo (...) muitas pessoas não confiam mais no Estado", diz o advogado Achilleas Demetriades, defensor dos direitos humanos, após a implantação em 13 de fevereiro da tropa de choque e um canhão d"água para dispersar manifestantes reunidos na capital, Nicósia.

A pandemia de covid-19 teve um efeito devastador na economia da ilha turística e, de acordo com Anastasia Demetriadou, uma musicista de 25 anos, a falta de apoio do governo fez com que alguns tivessem de escolher entre "pagar as contas ou se alimentar".

A jovem tornou-se um símbolo depois de quase perder a visão durante um protesto.

A repressão daquele dia alimentou a ira dos cipriotas, fartos de meses de confinamento e do escândalo dos "passaportes dourados" - emitidos para milhares de investidores estrangeiros, um programa suspeito de ter favorecido a corrupção e a lavagem de dinheiro.

Este dispositivo - um passaporte em troca de um investimento de 2,5 milhões de euros (3 milhões de dólares) na ilha - criticado pela União Europeia, da qual a República de Chipre faz parte, foi abolido em novembro após uma investigação da rede Al-Jazeera sobre supostos abusos que forçaram a renúncia do presidente do Parlamento, Demetris Syllouris.

A emissora transmitiu imagens de funcionários públicos, incluindo Syllouris, supostamente tentando ajudar um empresário fictício com ficha criminal a obter um passaporte cipriota.

O jornal Phileleftheros afirma que o ex-presidente do Parlamento recebeu 100.000 euros (121.500 dólares) mais uma pensão mensal de 5.000 euros (6.000 dólares) e uma ajuda para cobrir despesas.

Para piorar a situação, a poderosa Igreja Ortodoxa demoliu sem autorização quatro edifícios históricos perto da nova catedral no centro histórico de Nicósia.

"Há muita corrupção no Chipre (...) os eleitores não vão mais às urnas porque não confiam mais no governo", lamenta Anastasia Demetriadou.

Apesar da presença de crianças e cadeirantes na manifestação do dia 13, que reuniu centenas de pessoas apesar das restrições, os policiais usaram seus cassetetes e o canhão d"água, que primeiro direcionaram aos pés da musicista e depois para sua cabeça.

Ainda não se sabe como seu olho vai evoluir, mas ela tem certeza de que quer levar a Polícia à Justiça.

Questionados pela AFP, a Polícia e o Ministério da Justiça não quiseram comentar. Uma investigação está em andamento.

O advogado Achilleas Demetriades diz que nunca viu tamanha repressão em três décadas. "Houve um uso desproporcional e injustificado da força", considera.

A resposta dos cipriotas foi proporcional: na semana seguinte, cerca de 5.000 pessoas protestaram pacificamente em Nicósia, no que foi uma das maiores manifestações dos últimos anos, constataram jornalistas da AFP.

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