Publicado 24 de Fevereiro de 2021 - 9h10

Por AFP

Mayla e Sofia se perguntavam, desde crianças, por que nasceram com genitália masculina.

"Nunca nos identificamos" como homens, dizem essas duas gêmeas trans brasileiras que, aos 19 anos, se recuperam de uma cirurgia de redesignação sexual bem-sucedida.

"É o único caso relatado [de gêmeas trans submetidas a essa cirurgia juntas] no mundo", diz o médico José Carlos Martins, que realizou as operações por quase cinco horas, com intervalo de um dia.

Uma semana após o procedimento, as jovens sorriem, brincam e também choram ao relatar o caminho de adaptação que percorreram desde a infância, quando se conscientizaram sobre seu corpo.

"Percebi que sempre amei o meu corpo, mas não estava satisfeita com os meus órgãos genitais (...) Assoprava os dentes-de-leão e sempre pedi a ao papai do céu que me transformasse em menina", diz Mayla, que diz ter chorado de emoção ao se ver pela primeira vez após a cirurgia.

Mayla e Sofia nasceram em Tapira, cidade mineira de apenas 4.000 habitantes.

"O medo dos nossos pais não era do que a gente é, era que a sociedade nos maltratasse", disse Mayla durante entrevista à AFP, realizada por videochamada.

Seu avô paterno vendeu uma propriedade para pagar as cirurgias, que custaram quase 100.000 reais.

"Quando se assumiram, foi um alívio para mim (...) Nem me lembro que um dia foram eles, para mim sempre serão elas", diz sua mãe, Mara Lúcia da Silva, 43 anos.

Mara levou Mayla e Sofia a psicólogos e médicos desde pequenas.

"Meu coração sempre soube que elas eram meninas e que estavam sofrendo", diz ela.

Mãe de duas outras filhas, esta secretária escolar apoiou-as durante as terapias hormonais e os tratamentos cirúrgicos e psicológicos, mas ainda sente alguns remorsos.

"Sofro como mãe por não ter lhes dado bonecas e vestidos, por não ter feito elas mais felizes enquanto eram crianças".

"Quando passávamos por alguma coisa na rua, o que mais queríamos era chegar em casa, contar para a mamãe e que ela nos abraçasse, porque ela era como uma leoa, sempre nos protegeu com unhas e dentes", explica Mayla.

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