Publicado 23 de Fevereiro de 2021 - 11h20

Por AFP

A vocação do pesquisador israelense Clinton Bailey, um especialista em beduínos que acumulou centenas de horas de gravações sonoras sobre essa sociedade nômade, nasceu quando corria ao ar livre no deserto do Negev, em Israel.

Foi no final dos anos 1960 que esse professor americano, que ensinava Relações Internacionais na Universidade de Columbia, em Nova York, decidiu se mudar para Israel para ensinar inglês em um kibutz.

Enquanto percorria as localidades beduínas, descobriu seu fascínio por essa parte da população que costuma viver na pobreza e no isolamento, à margem da sociedade israelense.

Com nove milhões de habitantes, Israel tem 250.000 beduínos que vivem, principalmente, no deserto do Negev. Eles fazem parte da comunidade de árabes israelenses, descendentes dos palestinos que permaneceram em suas terras após a criação de Israel em 1948.

Alguns mantiveram uma existência seminômade, e outros abandonaram-na, mas continuam apegados às suas tradições.

Em muitas caminhadas no deserto, Bailey, que fala árabe, muitas vezes é convidado a ficar em suas barracas. Mais à frente, ele investiu em um jipe, o que lhe permitiu chegar às aldeias mais remotas.

"Ao entender a cultura beduína, você entende a natureza humana, como as pessoas se adaptam para viver em condições muito difíceis", diz ele à AFP, em sua casa em Jerusalém, onde vive em meio a uma montanha de livros.

Recentemente, a Biblioteca Nacional de Israel digitalizou seu singular arquivo de áudio e o transcreveu para o árabe e o inglês, de modo a ampliar nosso conhecimento da cultura beduína, até então pouco documentada.

Bailey se comprometeu gravar seus interlocutores, porque a tradição oral é seu principal meio de transmissão cultural.

"Senti que era importante registrar suas memórias", comenta o pesquisador, "principalmente porque esta sociedade, tribal e tradicional, está em plena transição para a modernidade".

Vê-los usar rádios e potes de plástico antecipou uma modernidade que inevitavelmente invadiria suas tradições, completa, acrescentando que temia que a cultura beduína "desaparecesse".

Cerca de 350 horas de gravação imortalizam suas entrevistas com beduínos do Negev, mas também do Sinai egípcio, ocupado por Israel por mais de uma década após a Guerra dos Seis Dias de 1967.

As conversas abordam temas tão diversos quanto a história, o sistema judicial, ou a poesia beduína, tema ao qual o especialista dedicou o primeiro de seus quatro livros.

Os arquivos estarão disponíveis na Internet para que todos os beduínos possam acessar esta "história oral rara e de alta qualidade" de sua cultura e história, disse a chefe das coleções da Biblioteca, Raquel Ukeles.

A Biblioteca Nacional também está tentando colaborar com estudiosos do Golfo, uma região ainda muito impregnada da tradição beduína. Essa perspectiva se verá facilitada pela recente normalização das relações entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

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