Publicado 22 de Fevereiro de 2021 - 9h23

Por AFP

Muitos cristãos que foram ameaçados ou que tiveram medo durante a guerra fugiram do Iraque, deixando para trás casas que foram saqueadas por milicianos ou vizinhos inescrupulosos. E para muitos, recuperá-las é uma batalha perdida de antemão.

"Acabei vendendo pelo preço que me ofereceram", diz Fawzi Boulos, sobre sua casa de quase 350m2 em uma avenida elegante de Bagdá, onde não põe os pés desde 2007.

Naquela época, quando a violência religiosa estava em seu auge na capital, este veterinário decidiu ir embora. Uma vez no Curdistão, soube que alguns homens a ocuparam.

Nos anos seguintes, após retornar à capital iraquiana, recebeu ameaças de morte todas as vezes que tentou se aproximar de sua casa.

Contratou um advogado por US$ 15.000, recorreu ao comando militar e até pediu ajuda ao primeiro-ministro da época. Mas não adiantou.

Entre os custos da justiça, subornos a supostos mediadores, ele estima que tenha gastado o que os ocupantes concordaram em pagar por sua casa: US$ 400.000, bem abaixo do mercado em Bagdá, onde as casas são vendidas por mais que o dobro.

William Warda, que criou a ONG Hammurabi para defender as minorias, levou dezenas de casos como este à justiça, dossiers que a AFP consultou.

E a história se repete: os donos ou parentes que cuidavam das casas viram homens ameaçadores aparecerem do nada - muitas vezes armados - para expulsá-los.

Em voz baixa, muitos proprietários - sejam eles membros da minoria cristã ou muçulmanos que sofreram a guerra civil ou expurgos de membros do regime deposto de Saddam Hussein - acusam grupos armados de estarem envolvidos.

Essas facções são atualmente poderosos batalhões xiitas, muitas vezes pró-Irã, que controlam o Parlamento e vários ministérios.

Diante deles, os cristãos se sentem desarmados.

"Os muçulmanos podem recorrer a partidos políticos ou tribos para defendê-los, nós não podemos", diz à AFP o padre grego-ortodoxo Yunan al-Farid.

No Parlamento, um sistema de cotas impõe a presença de cinco deputados cristãos. Mas em um sistema de listas, defendem mais os interesses partidários do que os interesses da comunidade.

Em 2008, o Estado criou uma Comissão encarregada de expulsar os ocupantes. Na época, o país estava tentando superar a guerra civil e inúmeras disputas entre xiitas e sunitas foram resolvidas dessa forma.

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