Publicado 22 de Fevereiro de 2021 - 7h40

Por AFP

Igrejas destruídas, becos invadidos pelo lixo e estigmas da guerra. Nos escombros de Mossul, Karamlech e Qaraqosh, onde os jihadistas tentaram apagar qualquer presença cristã, o arcebispo Najeeb Michaeel quer, apesar de tudo, receber o papa Francisco "com alegria" no início de março.

Os três anos de ocupação do grupo do Estado Islâmico (EI) deixaram sua marca: uma cruz quebrada na torre de uma igreja, um cálice danificado, o ícone exposto em uma caixa de vidro... Estas são provas guardadas para "superar o passado", "perdoando, mas sem esquecer", disse à AFP o arcebispo caldeu católico de Mossul e Aqra.

Ele mesmo salvou manuscritos antigos das garras do EI, no que foi seu feudo no Iraque, no norte do país, levando-os para o Curdistão, à noite, por estradas precárias e difíceis.

Desde que foi anunciada a primeira visita de um papa ao Iraque, a carga de trabalho deste prelado com um sorriso jovial aumentou, conta ele, da Arquidiocese de Karamlech.

Em todas as cidades, por onde passará o chefe de 1,3 bilhão de católicos do mundo, corais ensaiam há semanas. Em todas as igrejas, eles imaginam o dia em que poderão se aproximar do sucessor de Pedro.

Os padres se preparam para traduzir as missas para o italiano, latim, árabe e aramaico, já que o papa pronunciará no Iraque sua primeira missa de rito oriental - com rituais, cantos e uma língua litúrgica diferentes.

Foram criadas comissões de funcionários públicos para lidar com a logística e o protocolo.

Para o arcebispo Michaeel, a tarefa é ainda mais delicada, já que há mais de cinco anos nenhuma personalidade de governo estrangeiro põe os pés em Mossul.

"Temos uma pressão enorme: o Santo Padre não é uma personalidade comum, é o representante de um Estado e dos católicos do mundo", afirma o prelado de 65 anos.

Uma personalidade que se desloca em um veículo aberto em um país onde a insegurança espreita e um homem de 84 anos que não poderá vagar pelos escombros, ou pelas vielas íngremes da velha Mossul.

Nesta província, que tem "14 igrejas destruídas, das quais sete remontam aos séculos V, VI e VII", não há catedral, nem mesmo um estádio para abrigar a missa papal, reconhece o arcebispo na antiga Mossul, onde nasceu, destruída pela guerra contra os jihadistas em 2017.

A Catedral de Miskinta, "mártir" dos primeiros séculos, à qual ele ia em família quando era criança, está repleta de escombros. Na igreja de San Simeón, há sacos de areia e lixo...

Em um país onde os jihadistas permanecem escondidos, "todos os responsáveis pela segurança vão ficar muito preocupados", reconhece o arcebispo, um ex-engenheiro de perfuração de petróleo que abandonou uma vida muito confortável para responder à sua vocação.

A viagem de três dias do papa "é muito importante para todos os iraquianos", diz ele.

"Este país é um mosaico de mil cores, que aguenta apenas se todos os elementos se reunirem. Não se pode separar, como é o caso hoje", lamenta.

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