Publicado 18 de Fevereiro de 2021 - 12h50

Por AFP

Nas remotas aldeias de montanhas turcas, o doutor Sergan Saracoglu, com sua pasta cheia de seringas, enfrenta um duplo desafio ao injetar a vacina anticovid em pessoas mais velhas: clima extremo e crenças ancestrais recalcitrantes.

Depois de dirigir por mais de uma hora em estradas íngremes cobertas de neve, Saracoglu, acompanhado por outro médico e uma enfermeira, chega à vila de maioria curda de Imamli, situada nas montanhas da província de Van (leste da Turquia).

Em sua mão, ele leva uma lista com o nome de pessoas com mais de 65 anos que podem receber a vacina. A equipe consegue localizar sua primeira paciente: Berfo Arsakay, de 101 anos.

Depois de injetar a primeira dose da vacina chinesa CoronaVac, a equipe espera meia hora, enquanto bebe chá em sua modesta casa, para se certificar de que a senhora não terá efeitos colaterais.

"Ela teve uma atitude positiva", celebra o dr. Saracoglu.

"Tivemos casos em que as pessoas se recusaram a serem vacinadas", relatou.

A Turquia, que começou a vacinar sua população em meados de janeiro, registrou até agora 2,5 milhões de infecções por COVID-19 e mais de 27.000 mortes. Mas as áreas montanhosas remotas e isoladas das cidades parecem estar mais protegidas da pandemia.

"É muito bom que eles tenham podido chegar aqui, porque me chamaram para ir ao hospital, mas jurei que não faria isso até acabarem com o vírus", murmura essa senhora centenária.

O dr. Saracoglu e sua equipe tiveram menos sorte em outro pequeno vilarejo, Ozbeyli, localizado no mesmo distrito. Partiram de lá sem conseguir vacinar as únicas três pessoas de sua lista: um homem, que não conseguiram localizar, e duas mulheres, que rejeitaram a vacina.

O jovem governador da cidade, Mahmut Seker, inicia um discurso ecológico para minimizar a situação.

"Graças a Deus, não temos o coronavírus aqui. É um lugar limpo, com ar puro", diz. "As pessoas não querem se vacinar por isso. Além disso, têm medo", explica.

O médico concorda que essas áreas remotas estão menos expostas.

"Em geral, nessas pequenas aldeias são registrados poucos casos. É graças a essa distância social natural, ao ar livre", afirma o dr. Saracoglu.

"Além disso, no inverno (boreal, verão no Brasil), eles ficam geograficamente isolados da cidade, o que faz com que o coronavírus circule menos", acrescenta.

Em Imamli, os pais de Sabahtin Saymaz, agora idosos, estão ansiosos para voltar a Bahcesaray, a capital do distrito, onde não colocam os pés desde o início da pandemia.

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