Publicado 17 de Fevereiro de 2021 - 10h50

Por AFP

Uma orquestra que toca uma canção revolucionária, hinos que clamam por revolta e dançarinos ao ritmo de sucessos de Michael Jackson. Em Mianmar, os jovens que protestam contra o golpe de Estado usam a música como arma contra a junta militar.

Desde que o Exército derrubou a líder civil Aung San Suu Kyi em 1º de fevereiro, a revolta paira no ar, das grandes cidades até as aldeias mais isoladas.

Em todo o país, a população canta diariamente um coro de dissidência ao som de tambores e potes, enquanto jovens compositores, coreógrafos e músicos expressam criativamente sua raiva e resistência aos generais.

Esta semana, uma grande orquestra de jovens rebeldes chamada "Geração Z MM", composta por violinos, violoncelos, trombones, percussões e uma harpa curvada, lançou uma nova canção de protesto intitulada "Revolução" no centro de Yangon.

"A música que tocamos significa "Com a carne e o sangue da nossa juventude, vamos tentar acabar com a ditadura militar"", explicou à AFP a cantora Pan.

Para a jovem de 25 anos, tocar com a orquestra tem um efeito catártico em um momento de estresse e angústia pelo futuro de seu país.

"A música pode penetrar no coração de qualquer pessoa a qualquer momento. Acho que todos que nos ouviram foram inspirados", comentou.

Mianmar tem uma longa história de cantos de manifestantes, muitas vezes expressando arte popular satírica chamada "thangyat" em birmanês.

Geralmente humorísticos, esses programas expõem comentários políticos e se levantam contra injustiças, pequenas e grandes.

A maioria dessas canções de revolta foi proibida após a revolta de 1988, que o Exército reprimiu violentamente, causando milhares de mortes entre os manifestantes.

A canção "Kabar Ma Kyay Bu" ("Não esqueceremos até o fim do mundo"), emblemática dessas manifestações pró-democracia, voltou recentemente com força.

Adaptada à melodia de "Dust in the Wind" (1977) do grupo americano Kansas, a versão birmanesa, que clama por revolução, é cantada novamente pelos manifestantes como um desafio à junta.

No distrito comercial da capital econômica Yangon, os manifestantes dançam. Após alguns passos coreografados, um grupo de jovens se revesa no hip hop.

"As pessoas nos perguntam: "Você dança de alegria?". Não, não estamos felizes. Simplesmente evacuamos as emoções que se agitam dentro de nós e deixamos essas obsessões assumirem enquanto dançamos", explica um dançarino.

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