Publicado 15 de Fevereiro de 2021 - 11h10

Por AFP

Apesar de um ano desastroso para o mundo da gastronomia, a chef francesa Hélène Darroze conseguiu um feito: passar de três para cinco estrelas Michelin, tornando-se a segunda mulher mais premiada pelo Guia Vermelho, graças a uma cozinha "mais emotiva do que técnica".

Conhecida do público por sua participação na versão francesa do programa de TV "Top Chef", Hélène Darroze, de 53 anos, alcançou o auge da gastronomia mundial no início de janeiro ao obter uma terceira estrela para seu restaurante londrino "Hélène Darroze at The Connaught" e uma segunda para "Marsan", seu estabelecimento parisiense.

Um feito alcançado até agora apenas por outra mulher: sua compatriota Anne-Sophie Pic, oito estrelas. Outra mulher que se destacou este ano foi sua amiga britânica Clare Smyth, do restaurante "Core", coroada com uma terceira estrela.

Um reconhecimento inédito na história do guia Michelin e também um sinal de que o mundo da gastronomia, há muito associado aos homens, está mudando. A este sinal, Hélène Darroze acrescenta uma mensagem: "Continue a viver a sua paixão como mulher", "não tente ser outra pessoa que não mulher", insiste durante entrevista concedida à AFP.

"Temos uma sensibilidade diferente, e isso se vê no prato", diz aquela que reivindica uma cozinha feminina, "mais emotiva do que técnica".

"Quando um homem cozinha, ele quer primeiro mostrar que pode fazer isso ou aquilo, enquanto a mulher, tenho a impressão que ela só quer agradar (...)", explica ela, acrescentando que não procura criticar os homens, cujo trabalho ela "respeita".

Com Darroze, a cozinha é um assunto de família. Em 1895, o seu bisavô abriu o "Le Relais", um restaurante familiar em Villeneuve-de-Marsan onde ela trabalhou e que rebatizou de "Chez Darroze". No entanto, foi para os estudos de negócios que ela se encaminhou após o vestibular.

Foi o famoso chef Alain Ducasse quem finalmente a convenceu a se lançar na cozinha quando ela trabalhou em seu restaurante "Louis XV" em Monte-Carlo.

Era o início de vinte anos durante os quais ela admite ter tido que fazer "escolhas": "Não pude ser mãe até os 40 anos porque antes tinha decidido entregar-me plenamente a esta profissão", conta, referindo-se à adoção de suas duas filhas.

Em 2001 obteve a sua primeira estrela e, dois anos depois, a segunda. Sua marca registrada? Cozinha generosa, reconhecida por suas influências da cozinha do sudoeste e basca. Em 2015, foi a consagração: foi eleita "melhor chef feminina do mundo" no ranking anual 50 Best.

"Tenho colegas que sofreram por serem mulheres em círculos mais masculinos (...) eu sempre encontrei meu lugar", assegura.

Nas cozinhas, ela impõe sua visão da profissão. "Nunca quis ser chamada de chef", explica. "Mas por mais que eu explique que não é com um título que nos fazemos respeitar, sempre há alguns que não conseguem e me dizem: "não consigo"".

Outra revolução, ela se recusa a levantar a voz ou gritar com seus funcionários na cozinha. "Quando há um problema, você tem que saber como conter o estresse. Não é gritando ou jogando uma colher que você resolve um problema".

Apesar de um ano catastrófico para a gastronomia, marcado pelo fechamento de restaurantes devido à pandemia de covid-19, Hélène Darroze garante: "a pandemia mudou a forma de ver as coisas".

A partir de agora, por exemplo, ela se recusa a usar caviar chinês, "para apoiar os produtores franceses que sofrem mais do que nós".

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