Publicado 15 de Fevereiro de 2021 - 10h40

Por AFP

Nos Estados Unidos, os afro-americanos afetados pela covid-19 têm duas vezes mais chances de morrer do que os brancos, de acordo com autoridades da saúde. Uma estatística assustadora, mas Gary Jackson não quer ouvir falar de vacinas.

A negativa deste afro-americano, mecânico de 39 anos que vive em Washington, é emblemática de uma desconfiança das autoridades e instituições de saúde, nascida de práticas discriminatórias.

Essa dificuldade está no cerne das questões de saúde pública que os Estados Unidos devem enfrentar se quiserem finalmente controlar a epidemia de covid-19, acreditam vários especialistas.

"Não tenho certeza se é do meu interesse", diz Gary Jackson, sobre a vacinação contra o coronavírus.

"Tenho a impressão de que somos sempre os últimos ou servimos de cobaias", desabafou, enquanto consertava a janela de um carro.

A propensão a ser vacinado está intrinsecamente ligada ao grau de confiança nas instituições médicas e nos tratamentos que oferecem. No entanto, essas duas áreas têm sido objeto de episódios considerados racistas por defensores dos direitos civis nos Estados Unidos.

Um exemplo notável é o estudo de Tuskegee. Nesta cidade do Alabama, cientistas do governo americano estudaram a partir da década de 1930 os efeitos da sífilis nos homens negros, durante 40 anos, sem lhes fornecer tratamento, para observar a evolução da infecção.

E este estudo está longe de ser um incidente isolado.

"Numerosos experimentos perigosos, não consensuais e não terapêuticos foram realizados em afro-americanos e foram amplamente documentados, pelo menos desde o século 18", escreve Harriet Washington em seu livro "Medical Apartheid" publicado em 2006.

Um passado sombrio que levou alguns grupos a recomendar hoje aos afro-americanos o boicote das vacinas, como a organização muçulmana "Nation of Islam".

"Não deixem que te vacinem", intima um artigo do polêmico líder desta entidade, Louis Farrakhan, que denuncia um "passado de traições ligadas às vacinas".

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) relataram em fevereiro que 46,5% dos negros nos EUA não pretendem receber a vacina, em comparação com 32,4% dos hispânicos e 30,3% dos brancos.

No entanto, a proporção de indivíduos prontos para receber uma dose da vacina aumentou entre esses três grupos desde o início da pandemia.

"É apenas medo. O medo das vacinas, de ser cobaias, algo assim. É disso que os negros têm medo", explica John Jones III, um mediador de bairro em Los Angeles.

"De repente, me mandam tomar este "medicamento" do nada? É uma luta" para se convencer, acrescenta o mediador de 40 anos, que especifica que ainda não decidiu se será vacinado.

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