Publicado 14 de Fevereiro de 2021 - 14h40

Por Estadão Conteúdo

Na calma e rica Oslo, pessoas começam a surgir da água, vindas de outras épocas. Em pouco tempo, a cidade está cheia de gente da pré-história, vikings e cavalheiros e damas do século 19. Acertou quem viu um paralelo com a crise de refugiados em toda a Europa na premissa de Beforeigners: Os Visitantes, primeira série norueguesa da HBO, que exibe o último episódio de sua primeira temporada neste domingo, às 22h. "É uma alegoria, um jeito de tratar do assunto sem ser explícito demais", disse Eilif Skodvin, criador da série com Anne Bjørnstad, em entrevista ao Estadão, por videoconferência.

O trabalho mais famoso da dupla, Lilyhammer, disponível na Netflix, era sobre um gângster nova-iorquino na Noruega e também tocava no assunto dos refugiados, mas os roteiristas estavam interessados em um outro tipo de história, que incorporasse elementos de ficção científica. "A gente pensou muito em séries como True Blood e filmes como Distrito 9, que lidam com o mesmo tema, só que com vampiros e alienígenas", disse Skodvin. "No fim, são todas sobre integração", afirmou Bjørnstad.

A viagem no tempo foi ideal para abordar o tema de forma diferente. Os imigrantes, aqui, são do mesmo país, só que é como se fossem de outro mundo. Era importante que tivessem origens diferentes, porque normalmente imigrantes não são grupos homogêneos. "É meio engraçado porque os moradores que não veem com bons olhos essa chegada de novos habitantes não podem dizer: ‘Voltem para o lugar de onde vieram!’, algo que muitos imigrantes ouvem, já que eles são dali. Isso é interessante e engraçado ao mesmo tempo", disse Anne Bjørnstad.

Beforeigners é como esses novos indivíduos são chamados. A série está mais interessada em sua assimilação do que nas razões pelas quais eles vieram parar no século 21. Tanto que logo no primeiro episódio, após a chegada dos primeiros "beforeigners", sempre na água, a série pula no tempo, mostrando sua integração - ou não - à sociedade muitos anos depois.

O choque cultural é evidente, mas também sua influência no século 21. Em pouco tempo, não faltam cafés moderninhos que vendem mingau de aveia à maneira tradicional. "Nós queríamos falar de como essas pessoas veem a gente", explicou Bjørnstad. "O que alguém do século 19 acharia do mundo de hoje? O que os vikings pensariam?", questionou ela. Para Skodvin, os vikings perguntariam o que aconteceu com a macheza. "Era um mundo rico a ser explorado", afirmou ele.

Mas os criadores acharam que precisavam de algo mais sólido para sustentar essa ideia tão maluca e acabaram criando uma trama policial, em que o veterano detetive Lars Haaland (Nicolai Cleve Broch) precisa investigar a morte de uma mulher coberta de tatuagens da Idade da Pedra e com dentes podres. Sua parceira é Alfhildr Enginnsdóttir (Krista Kosonen), a primeira policial "beforeigner", originalmente uma mulher de lavrador viking que está em seu primeiro dia no trabalho. "Como tinha muita coisa estranha na série, achamos que ter uma estrutura reconhecível faria o espectador apreciar mais as ideias sobre esse universo", disse Anne Bjørnstad. Para Skodvin, a força do romance policial escandinavo está justamente em usar o crime para explorar as questões da sociedade, até porque a taxa de assassinatos em Oslo é baixíssima.

A primeira temporada não explica muito por que essas pessoas vieram parar no nosso tempo, nem como. "Nosso foco é mais político e cômico", disse Skodvin. Há algumas regras implícitas. Por exemplo, as pessoas sempre surgem no lugar onde originalmente nasceram, só que em outras épocas. Mas a segunda temporada pode explorar mais os detalhes dessas aparições e, quem sabe, falar até de como elas se deram em outras partes do mundo - logo no início fica evidente que é um fenômeno global.

Se fosse no Brasil ou na Itália, por exemplo, as pessoas que surgiram são brasileiras e italianas, respectivamente. Mas seriam das mesmas épocas de que vieram os "beforeigners" noruegueses, ou seja, Idade da Pedra, Idade Média e século 19? "Ainda não fechamos essa questão", explicou Skodvin. "Pode ser que no Brasil, por causa das condições locais de água, eletricidade, as pessoas teriam vindo de outras eras. Mas seria muito divertido saber como esse fenômeno se deu no Brasil", completou o roteirista. Provavelmente por aqui, os "beforeigners" já teriam virado enredo e fantasia de carnaval. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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