Publicado 13 de Fevereiro de 2021 - 12h10

Por AFP

Os rohingyas de Mianmar, castigados por anos de conflito, vivem com medo do retorno dos militares ao poder, pois temem mais perseguições em sua região de origem, o estado de Rakhine, do qual milhares de membros dessa minoria muçulmana tiveram que fugir.

Grande parte dessa comunidade muçulmana apátrida, perseguida por um longo tempo, passou anos em campos de deslocados, sem liberdade de movimento ou acesso a cuidados, vivendo em condições descritas como "apartheid" pelos defensores dos direitos humanos.

Eles continuam profundamente marcados pela repressão militar de 2017, quando suas aldeias foram arrasadas e cerca de 750.000 rohingyas tiveram que fugir da violência para se refugiar no vizinho Bangladesh.

"Com um governo democrático, tínhamos a pequena esperança de poder voltar para nossas casas", disse um Rohingya que pede anonimato, em um campo perto de Sittwe, capital do estado de Rakhine. "Mas agora é certo que não poderemos voltar", acrescenta.

Mianmar foi denunciada perante o Tribunal Internacional de Justiça (TPI), acusada de genocídio na repressão no estado de Rakhine, onde a maioria dos Rohingya vivia.

O chefe do exército, Min Aung Hlaing, que lidera a junta desde o golpe, afirmou que a repressão foi necessária para encerrar a insurreição em Rakhine.

"Há um risco real de que (esse regime) leve a uma nova violência em Rakhine", disse Tun Khin, presidente da ONG britânica Burma Rohingya Organization.

Após o golpe de 1º de fevereiro, a junta prometeu respeitar os planos de repatriação de refugiados em Bangladesh, que não são implementados há anos.

Mas "ninguém acredita em uma palavra do que eles dizem", diz Tun Khin.

Aung San Suu Kyi, derrubada pelo golpe militar e que era a chefe de governo de fato durante a repressão de 2017, defendeu o exército de acusações de genocídio perante o TPI em 2019.

Em Bangladesh, refugiados enviaram mensagens de apoio aos manifestantes que diariamente desafiam a junta, pedindo o retorno de Aung San Suu Kyi.

Rakhine, onde vive a minoria rohingya e uma grande maioria budista, tem sido palco de vários conflitos durante anos.

Na região, alguns compartilham do medo do retorno do regime militar, mesmo que a década democrática sob a liderança de Aung San Suu Kyi não tenha melhorado as condições.

Tun Maung ainda se lembra de como se escondeu nos poços para escapar dos disparos do último regime militar.

"Já vivi sob a ditadura militar e sob o governo civil... vejo a diferença", diz o homem, que pediu para ser identificado com um pseudônimo.

"Não podemos aceitar viver novamente sob um regime militar", insiste.

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