Publicado 05 de Fevereiro de 2021 - 11h50

Por AFP

Na América Latina, a segunda região do mundo com mais mortes por coronavírus, uma cena de desespero se repete: pessoas em filas intermináveis ou pagando preços altos por um cilindro de oxigênio, enquanto pacientes morrem asfixiados em hospitais.

Sob um sol escaldante em Manaus, ou na noite fria nos arredores de Lima, no Peru, milhares de pessoas peregrinaram nas últimas semanas em busca do gás vital para socorrer seus parentes infectados.

A pandemia, que na América Latina já provocou 19,1 milhões de infecções e mais de 606 mil mortes desde o primeiro caso confirmado há quase um ano, disparou a demanda por oxigênio medicinal.

Yamil Antonio Suca chegou de madrugada a um centro de distribuição em El Callao, porto vizinho à capital peruana, na esperança de conseguir encher seu cilindro. Outros ao seu lado esperavam há dois ou três dias.

"Meu pai está com covid, ele tem 50 anos e precisa de oxigênio, sua saturação é muito baixa", disse à AFP este estudante universitário de 20 anos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de um em cada cinco pacientes com covid-19 necessita de oxigênio em concentrações superiores às encontradas no meio ambiente.

"Sem essa terapia, a covid-19 pode ser fatal", disse a especialista em medicina de emergência Priyanka Relan, no Boletim da OMS, o jornal científico da organização.

Mas lidar com essas insuficiências respiratórias pode ser um grande desafio em países considerados pelo Banco Mundial como de baixa e média renda, ressalta a organização de saúde sem fins lucrativos PATH, com sede em Seattle.

Seu projeto COVID-19 Respiratory Care Response Coordination criou uma ferramenta interativa para estimar a necessidade diária de oxigênio para pacientes com coronavírus.

O Brasil era o único no vermelho na quinta-feira, com mais de 2,2 milhões de metros cúbicos requeridos. Em laranja estavam México (628.000 m3) e Colômbia (537.000 m3) e, em amarelo, a Argentina (393.000 m3) e o Peru (257.000 m3).

O oxigênio medicinal está na lista de medicamentos essenciais da OMS, mas o custo do gás e a falta de infraestrutura para instalar e manter o suprimento dificultam o acesso e a distribuição.

No Brasil, que com mais de 226.000 mortes é o segundo país do mundo depois dos Estados Unidos com o maior número de vítimas fatais pela covid-19 em termos absolutos, a segunda onda da pandemia esgotou as reservas de oxigênio no estado do Amazonas.

Em meados de janeiro, a demanda diária no Amazonas girava em torno de 76 mil m3 de oxigênio, mas as empresas fornecedoras não conseguiam produzir mais do que 28,2 mil m3.

Na capital Manaus, única das 63 cidades do estado com unidades de terapia intensiva (UTI), dezenas de pessoas morreram por falta de oxigênio.

Sobrecarregadas, as autoridades estaduais tiveram que impor um toque de recolher, enquanto o governo evacuou pacientes para outros estados, organizou envios de oxigênio para Manaus e até recebeu uma doação da empobrecida Venezuela.

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