Publicado 04 de Fevereiro de 2021 - 15h00

Por AFP

Nas plantações de Minas Gerais, estado que produz 70% da variedade arábica brasileira, os cafeicultores esperam que as chuvas tardias limitem uma provável queda drástica na produção deste ano do maior produtor e exportador de café do mundo.

Para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de arábica, variedade que representa cerca de 77% do café produzido no país, deve cair mais de um terço em relação ao ano passado, para entre 30 e 33 milhões de sacas de 60 quilos.

A queda deve-se em parte a um fenômeno natural: o ciclo de bienalidade dessa variedade, cujas plantas alternam um ano de grande floração com boa produtividade e outro de floração com menor rendimento.

A seca e as temperaturas excessivamente altas de setembro a novembro "acentuaram esse cenário", ao atrasar a floração dos arbustos, provocando a queda das bagas de café em formação, explica Renato García Ribeiro, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea).

Pelos cálculos de Heloisa Melo, da consultoria Agroconsult, as chuvas nos meses de outubro e novembro no sul de Minas Gerais foram duas vezes mais baixas que a média da época.

Essas condições climáticas no sudeste do Brasil podem ser explicadas "por um momento de transição entre um período neutro e a volta do La Niña", um fenômeno climático que geralmente causa mau tempo, mas também pode causar secas, principalmente no sul, afirma Gil Barabach, Consultor de Safras e Mercado.

"Estávamos em um ciclo de aumento de produção, até em bienalidade negativa, mas o déficit hídrico que passamos vai provocar uma quebra de 39% da safra na região, a um nível parecido com o de 2017 e atrapalhar a qualidade dos grãos", lamenta José Marcos Magalhães, presidente da Minasul.

Essa cooperativa, a segunda do país, vendeu dois milhões de sacas de arábica no ano passado.

Diante dessas perspectivas sombrias, muitos produtores decidiram adotar o método chamado de "safra zero", podando todos ou parte de seus arbustos para se preparar melhor para a safra seguinte.

Mas a safra recorde de 2020 e a alta do preço do arábica por conta da forte desvalorização do real frente ao dólar "permitiu aos produtores capitalizar e investir nas plantações, com plantios novos e melhor manejamento, compra de adubação e de variedades mais produtivas", afirma Paulo Henrique Leme, professor do Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras.

"O impacto desses investimentos virá daqui a 3 ou 4 anos", prevê.

O preço do arábica não parece ter se recuperado ainda, apesar das previsões de queda da safra no país.

No mercado ICE Futures de Nova York, uma libra de arábica para entrega em março valia 122,65 centavos na sexta-feira passada, em comparação aos 124,06 centavos sete dias antes e 123,4 centavos em 2 de janeiro.

"Os compradores estão tranquilos, porque a safra passada ainda está sendo embarcada para o exterior. Mas, gradualmente, o preço do arábica vai subir", prevê Gil Barabach.

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