Publicado 04 de Fevereiro de 2021 - 12h00

Por AFP

A trajetória de Hector Babenco, amante do cinema e da vida, representa o Brasil no Oscar este ano. "Ele não queria ir embora, estava sempre construindo novos roteiros para sobreviver", diz à AFP sua viúva, Bárbara Paz, diretora de um documentário sobre os últimos anos do renomado cineasta argentino, naturalizado brasileiro, falecido em 2016.

Para Babenco, responsável por sucessos como "O beijo da mulher aranha" (1985) e "Carandiru" (2003), o cinema era fonte de vida e a vida era fonte de cinema. E foi filmando que ele sobreviveu ao câncer por 32 anos.

"Babenco - Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou" é intimista e se desenvolve como um conto que explora as memórias, os sonhos e delírios do cineasta, falecido aos 70 anos. Segundo a diretora, muitos - inclusive pessoas próximas - se surpreenderam ao assistir o longa.

"Acho que o Hector tinha várias camadas, vários escudos, era um homem muito bravo, genioso, inteligente (...) Esse filme aproximou ele do ser humano por quem me apaixonei e por quem eu queria que todo mundo se apaixonasse", relata.

Apesar de reunir todos os ingredientes de tragédia, "Babenco", cujas filmagens começaram em 2010 e se intensificaram no último ano de vida do diretor, não se rende ao melodrama.

"Hector ia me matar, porque ele detestava", brinca Paz. "Sempre quando estava montando e chegava ali no choro ou muito melodrama, eu voltava. Porque ele era assim, apesar dos pesares, tinha muito humor. Era um cara da vida".

Os dois se conheceram na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2007. "Acho que eu trouxe um pouco de energia para ele e ele me trouxe uma calmaria", diz Paz sobre seus anos juntos. Naquele ponto, ele "já tinha dado vários sustos" na família.

"Estava sempre na iminência de morrer e nunca morria, então todo mundo já achava que ele não ia morrer mais", lembra.

Certa vez, muito debilitado no hospital, Babenco viu um homem com uma maleta que, segundo ele, "não era padre, não era médico". Mas não havia ninguém e sua esposa questionou: "Hector, isso não foi a morte? Não foi um susto, um sonho seu?"

Ali mesmo, ele teve uma ideia para um personagem. A morte com sua maleta foi encarnada por Selton Mello em "Meu Amigo Hindu" (2015), último filme do cineasta, estrelado por Willem Dafoe.

Atrasado pela pandemia do coronavírus, o documentário "Babenco" estreou no Brasil em 26 de novembro, mas desde 2019 viajou pelo mundo em festivais e colecionou prêmios, como em Veneza, onde venceu Melhor Documentário na Mostra Venice Classics e o Bisato D"Oro.

O filme é a aposta do Brasil para figurar entre os indicados de duas categorias do Oscar 2021: filme internacional e documentário. A Academia vai divulgar uma pré-seleção em 9 de fevereiro e a lista final em 15 de março.

Nascido em Mar del Plata, Argentina, filho de imigrantes judeus, Hector Babenco foi um cidadão do mundo. Passou pela França, Itália, Espanha e até "aprendeu a fazer cinema nos filmes do Orson Welles", enquanto fazia figuração, conta Paz.

Como diretor, esteve à frente de produções no Brasil, Argentina, EUA, México e França.

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