Publicado 03 de Fevereiro de 2021 - 23h20

Por AFP

A dirigente birmanesa Aung San Suu Kyi foi acusada formalmente nesta quarta-feira (3), dois dias depois de ser deposta por um golpe de Estado militar, enquanto os apelos à desobediência civil se multiplicam no país.

Na segunda-feira, o exército encerrou a frágil transição democrática do país, impôs o estado de emergência por um ano e prendeu Suu Kyi, a chefe de fato do governo civil, além de outros líderes de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

Dois dias após o golpe, condenado por muitos países, surgiram os primeiros sinais de resistência.

Médicos e profissionais da saúde, que usavam fitas vermelhas em sinal de protesto, anunciaram que se recusariam a trabalhar, exceto em caso de emergência médica.

"Obedeceremos apenas ao governo democraticamente eleito", disse à AFP Aung San Min, diretor de um hospital com 100 leitos na região de Magway (centro).

Funcionários do hospital geral de Yangon se reuniram diante do edifício e fizeram a saudação com três dedos, um gesto de resistência adotado pelos ativistas pró-democracia de Hong Kong e Tailândia.

Também foi criado um grupo chamado Movimento de Desobediência Civil no Facebook, que já tinha 150.000 inscritos. "O Exército deveria ter vergonha" e "Os militares são ladrões", afirma página.

A rede social anunciou que na quinta-feira (noite de quarta no Brasil) o acesso estava "interrompido para algumas pessoas" e exortou as autoridades a restabelecerem a conexão.

Na terça-feira, no distrito comercial de Yangon, capital econômica do país, moradores protestaram com panelaços e buzinaços. Muitos gritaram "Viva a Mãe Suu".

Ao perceber o que poderia acontecer, Suu Kyi pediu à população que não aceite o golpe de Estado em uma carta escrita antes de sua detenção.

Nesta quarta-feira, autoridades a acusaram oficialmente de ter violado uma lei comercial e "ordenaram sua prisão provisória" até 15 de fevereiro, informou um porta-voz de seu partido.

O ex-presidente Win Myint foi acusado de ter violado a lei sobre a gestão de desastres naturais, segundo o próprio ex-líder.

O medo de represálias é palpável neste país que viveu, desde sua independência em 1948, sob o jugo da ditadura militar durante quase 50 anos.

"A população sabe muito bem até que ponto o Exército pode ser violento e o pouco que se importa com sua reputação internacional, o que poderia frear a vontade de mobilização", disse Francis Wade, autor de vários livros sobre o país.

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