Publicado 20 de Dezembro de 2020 - 8h30

A vacinação contra o covid-19 teve início e é incrível que a ciência levou menos de dez meses para desenvolver vários tipos dela. Ainda não entendi, e jamais irei entender como isso funciona. Só sei que milhares de pesquisadores vêm trabalhando incansavelmente para achar a melhor vacina para combater a mais perniciosa moléstia da história moderna – e estão fazendo isso em menos de dez meses, repito.

E o problema de sempre são os maus governantes que bloqueiam verbas para a ciência e, assim, tudo está chegando atrasado. Jair Bolsonaro contingenciou a verba para os nossos futuros cientistas e com isso bloqueou bolsas de pesquisadores e da ciência em geral. Gripesinha, resfriadinho, constipadinho, é disso que Jair Bolsonaro entende. Seus filhos estão metidos em grande encrenca e ele passa a mão na cabeça de todos eles e, é claro, nas carecas dos políticos que pretende comprar com cargos e afins. E esqueça aquela lorota de que ele jamais faria o famoso toma aqui e me dê lá o meu. E os mortos pela covid-19 são enterrados a olhos vistos. E Bolsonaro acha que todas essas mortes são naturais, já que todo mundo um dia vai morrer – inclusive ele que já está morto politicamente e sem um buraco histórico para chamar de seu. E aí não é questão sequer de ter compaixão. Mas de constatação política. Compaixão, devo dizer, devoto aos seus netos, aos seus verdadeiros amigos, aos seus parentes sinceros, e, é claro, aos seus eleitores arrependidos.

Escrevo esta crônica na casa da cunhada Márcia Iared, viúva de Flávio Iared, advogado e professor, grande cantor, e o meu computador está exatamente no canto da grande sala onde ele costumava trabalhar seus textos em uma máquina de escrever, quando não escrevendo a lápis. E assim me sinto honrado pelo espaço que ele ocupava – e agora em um note- bock modernoso que, por aqui, em Vargem Grande do Sul, tem a mania de nos levar a paciência para fazer conexão com a Internet. O meu saudoso amigo Flávio Iared, ilustre cidadão de Itapetininga, tinha a santa paciência joniana dos grandes educadores. E assim lembro e vou me acalmando para me conectar com as minhas próprias palavras – e que a minha editora também saiba que a ela lhe dedico momentos de paciência.

Não faço a menor ideia do motivo que me levou a citar o nome do presidente Jair Messias Bolsonaro. Deve ser o vento gelado de a Serra da Mantiqueira ou o céu escuro que vem chegando de São Sebastião da Grama. Ou talvez a falta de abraçar os violeiros Levi Ramiro, João Arruda e Clayton Roma – ou a falta de dar um último abraço no saudoso João Bá; ou no Gonzaguinha; ou no Gabrinha da Cuíca; ou no velho Pachola do Mercadão Municipal. Mas bem abracei, e muito, o poeta e compositor Oswaldo Guilherme, o cantor Moacir Gomes, o guitarrista Walter Cabeleira, o pianista Nicola Cego, o batuqueiro Regis Bitencourt, o cantor Wanderley, o pianista Arnoldo, o contrabaixista Airton Nunes – meu Deus! Quantos abraços, quantos carinhos musicais trocados, quantas madrugadas de boa prosa, quantas confissões de amores perdidos e achados.

Tantas coisas sérias para dizer e lembro do Jair Bolsonaro. Dever ser praga desses inimigos que se acham meus inimigos – e sobre isso devo deixar claro a quem quer que esteja interessado em ser meu inimigo que qualquer um deles prefiro e escolho a dedo; pois prefiro os melhores. Portanto, aos pretensos inimigos digo que se recolham a sua insignificância existencial e, por favor, se mantenham à distância pandêmica de minhas opiniões. Com ou sem suas máscaras ideológicas.

Estou em um canto sagrado de Vargem Grande do Sul e gostaria de dizer que estou indo muito bem, alimentado em boas lembranças e honrado pelo aconchego da senhora Márcia Iared. E que o raro leitor me perdoe pelas chulas palavras sobre Bolsonaro e afins. Afinal, nada é perfeito.

Bom dia.