Publicado 20 de Dezembro de 2020 - 8h43

Enigma é uma coisa difícil de entender. Um, eu decifrei na quarta-feira passada, quando o governo lançou o Plano Nacional de Imunização contra o novo Coronavírus: quando tivermos uma vacina, ainda não temos nenhuma, seremos todos vacinados. Não é uma boa notícia? Tudo resolvido. Não é mesmo? Pra que querer saber sobre as vacinas que serão disponibilizadas, sua segurança e eficácia, em que pé estão os processos licitatórios de aquisição de insumos, como seringas, agulhas etc., como será a logística de distribuição, qual o cronograma, com datas concretas, de imunização da população? O que importa é que um dia seremos vacinados. Todos nós! Quando? Como? “Para que essa ansiedade e essa angústia?”, questionou o Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, ao apresentar o plano de vacinação. No meu caso, a resposta é simples: sou maricas, conforme definição dada pelo presidente da República, que assim classificou todos os seres humanos que têm medo de contrair a Covid-19. Sou tão maricas que me emociono e me angustio ao ver mil mortos/dia, choro pelas mais de 185 mil mortes causadas pela pandemia, a do meu sogro entre elas.

O pior é que não sei até quando terei que vestir a carapuça. Acho que seguirei maricas por um bom tempo. Não temos nenhuma vacina aprovada pela ANVISA. A vacina da Oxford/ AstraZeneca, na qual o governo apostou quase todas as suas fichas, anda meio mambembe. Seus fabricantes não sabem se o paciente deve tomar meia dose ou dose inteira da primeira vez para ter imunidade na segunda. Nem se os idosos ficarão protegidos. Agora, a Universidade de Oxford informa que vai testar a vacina junto com a Sputnik V, antes tão desacreditada, menos pelo governador Ratinho Júnior, do Paraná, que fechou acordo com os russos. Outra coisa que deixa um humilde paisano como eu intrigado é o fato do Reino Unido não estar usando a vacina inglesa e ter lançado mão da americana Pfizer.

Nós também gostaríamos de ter esta vacina à nossa disposição, com a urgência que o caso requer, especialmente os que fazem parte do grupo de risco, como eu. No meu caso, de altíssimo risco, por ter uma comorbidade especial: o tamanho do saco, que pode explodir a qualquer momento, vítima da incúria e da incompetência das autoridades.

Correndo por fora, ou por dentro, já que a inciativa do governador João Doria foi pioneira, está a Coronavac, antes desdenhada por ser de origem chinesa.

No caso da vacina da Pfizer, o Brasil ficou no jogo do olha a bolinha, discutindo se 70 graus negativos era frio demais para um país tropical como o nosso, enquanto outros países mais desenvolvidos, como nossos vizinhos Chile e Equador (talvez por serem mais inteligentes) correram lá para comprar a maior quantidade de doses possível do imunizante gringo. Resultado: entramos numa fria. Estamos na lista de espera, condenados a ver pela televisão, cheios de inveja, outros cidadãos do mundo serem vacinados.

Bolsonaro, Doria, Caiado, Pazuello e outros personagens menos votados não se entendem. Rodrigo Maia procura um jeito de entrar na roda. O Supremo já entrou: decidiu que a vacinação será obrigatória, com sanções para quem não aderir. O Presidente da República não vai se vacinar. E agora, José?

A situação exige soluções. Afinal, ou acabamos com o Coronavirus ou ele acaba com o Brasil.

Mas como o nosso país é mesmo enigmático, estou pedindo a ajuda do Sherlock Holmes para me explicar porque o Rodrigo Maia não tinha e ainda não tem um candidato à sua sucessão. Resposta: ele estava certo de sua reeleição e de que não iria perder a boca rica. Só nos jatinhos da FAB ele voou mais de 900 vezes, muitas delas difíceis de justificar.

E o proscênio, sempre na alça de mira da mídia, posando de primeiro ministro e emitindo opinião sobre tudo?

Rodrigo Maia está atônito. Não consegue entender a peça que lhe pregou o STF. Afinal, estava tudo acertadinho com a PEC do Fraldão, tanto é que os primeiros votos lhe foram favoráveis. Menos o do novo ministro indicado por Bolsonaro, que sacou uma bizarra intepretação: Maia não pode ser reeleito, mas Alcolumbre sim, conforme desejava o Palácio do Planalto.

A sacanagem, segundo Maia, foi perpetrada à socapa, no domingo, quando 6 ministros roeram a corda e votaram pela observância do texto constitucional. Acabou o seu sonho de uma noite de verão.

E o Supremo? Por que será que esta votação, que deveria ser 11 a 0, terminou 6 a 5, para surpresa do grupo liderado por Gilmar Mendes?

Este é um enigma que só poderá ser desvendado por Hercule Poirot, o famoso personagem criado por Agatha Christie.

Flávio Faveco Corrêa é jornalista, publicitário e consultor - [email protected]