Publicado 20 de Dezembro de 2020 - 9h38

Por Francisco Lima Neto/AAN

As marinhas são a face mais conhecida de sua produção artística: nelas se refletem a experiência de marinheiro e o amor pelos diversos recantos do Litoral brasileiro

Reprodução

As marinhas são a face mais conhecida de sua produção artística: nelas se refletem a experiência de marinheiro e o amor pelos diversos recantos do Litoral brasileiro

Campinas sempre foi uma cidade mãe de inúmeras personalidades que se destacam nas mais diferentes áreas, da literatura à ciência, do cinema às artes plásticas e, entre seus filhos talentosos, está Giuseppe Gianinni Pancetti, mais conhecido como José Pancetti.

Filho de Giovanni Battista Pancetti e Corinna Giannini, imigrantes italianos, nasceu em Campinas no dia 18 de junho de 1902. Viveu aqui até os oito anos, quando o pai, mestre de obras, decide se mudar com a família para São Paulo, em busca de melhores trabalhos. Mas a situação não estava tão fácil e os problemas financeiros atormentavam a família. Assim, em 1913, aos 11 anos, junto de uma irmã, é enviado para o país de origem dos pais.

O pequeno campineiro foi morar com um tio, que negociava mármore, na região da Toscana, em Massa-Carrara. Ali passou a estudar no Colégio Salesiano. Porém, pouco tempo depois, partiu para o campo, foi morar com os avós em Pietrasanta já que a Itália estava envolvida na Primeira Guerra Mundial que se iniciou logo depois de sua chegada ao país.

Conforme crescia, por não se adaptar à vida de camponês, teve várias ocupações, entre elas, foi aprendiz de marceneiro, foi operário em fábrica de bicicletas e ainda foi empregado em uma fábrica de materiais bélicos. Em 1919, aos 17 anos, o tio, a fim de ajudá-lo a ter uma profissão um pouco melhor, o coloca para trabalhar na marinha mercante para aprender o ofício de marinheiro. Embarcado, percorria o Mediterrâneo, principalmente, entre os portos de Gênova e Alexandria. Contudo, era muito inquieto. Acabou abandonando o navio e passou a perambular pelas ruas de Gênova, com dificuldades para se manter. Até que em um determinado dia, vendo aquela situação, uma pessoa o encaminha para o consulado brasileiro, que providencia seu repatriamento.

Enviado ao Brasil, chegou em Santos, no dia 12 de fevereiro de 1920. Ali, trabalha no ramo têxtil, atua como auxiliar de ourives, na rede de esgotos e também como faxineiro de hotel. No ano seguinte se muda para São Paulo, onde um empresário italiano lhe dá um emprego de pintor de paredes e cartazes. Possivelmente, ali foi seu primeiro contato com as tintas e os pinceis. Ainda em 1921, o pintor Adolfo Fonzari deu a oportunidade de Pancetti ajudá-lo na decoração da casa do comendador Giuseppe Pugliese Carbone, em Guarujá.

Inquieto que era, em 1922 se alistou na Marinha de Guerra brasileira. Lá, teve a missão de pintar cascos, paredes e camarotes. Seu trabalho era tão diferenciado, que rapidamente fez fama em toda a Marinha.

Até que surgiu o desejo de transferir para o papel as imagens captadas por seus olhos. Em 1925, servindo no encouraçado Minas Gerais, pinta suas primeiras obras. Basicamente, paisagens, marinhas e cenas românticas ainda primárias, mas que já revelavam seu potencial artístico. No ano seguinte, para progredir na carreira, integra o quadro de pintores dentro da “Companhia de Praticantes e Especialistas em Convés”.

Até que em 1932, um trabalho seu foi publicado no jornal A Noite Ilustrada, com o título, “Um Amador da Pintura”. O escultor Paulo Mazzuchelli viu o desenho e o aconselhou a entrar no recém-criado Núcleo Bernardelli — um grupo fundado como alternativa ao ensino oficial da Escola Nacional de Belas Artes. O mesmo conselho foi repetido pelo pintor Giuseppe Gargaglione. Em 1933, ele ingressou no tal Núcleo, uma escola livre que funcionava nas dependências do edifício da Escola de Belas Artes. Com a passagem pelo Núcleo ganhou técnica e amadurecimento. Dois anos depois se casou com Anita Caruso.

Em 1941, com o quadro O Chão, ganhou na Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes uma viagem ao exterior, mas licenciado da Marinha por questões de saúde, não aproveitou o prêmio. No ano seguinte, se mudou para Campos do Jordão para tratar uma tuberculose que o maltratava. No mesmo ano nasceu a filha Nilma. Depois foi embora para São João del-Rei.

Realizou a primeira exposição individual em 1945, onde apresentou mais de 70 quadros. No ano seguinte foi reformado pela Marinha na patente de segundo-tenente. Dois anos depois, recebeu a medalha de ouro do Salão Nacional de Belas Artes. Em 1950, realizou a sua primeira exposição internacional, na Bienal de Veneza. Um ano depois participou da primeira Bienal de Arte de São Paulo.

Já em 1952 teve o segundo filho, Luis Carlos, e foi promovido a primeiro-tenente da Marinha Brasileira. Em 1954 mais um reconhecimento. Recebeu a medalha de ouro no Salão de Belas Artes da Bahia e em 1955 fez uma importante exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Morreu em 10 de fevereiro de 1958, de câncer de estômago no Hospital Central da Marinha no Rio de Janeiro.

MACC recebeu seu nome em homenagem

Campinas fundou em 1º de setembro de 1965 o Museu de Arte Contemporânea José Pancetti (MACC) por ocasião da realização do 1º Salão de Arte Contemporânea de Campinas. Primeiro funcionou em prédio cedido pela CPFL, na Avenida da Saudade, e em 1976 foi transferido para o prédio atual, na Avenida Benjamin Constant, 1.633, no andar térreo, ficando o 1º andar reservado à Biblioteca Pública Municipal. O espaço tem o propósito de reunir, conservar e divulgar a produção artística contemporânea, bem como realizar atividades culturais e educacionais variadas. O museu conta com um acervo de mais ou menos 600 obras — entre pinturas, esculturas, desenhos e instalações. 

Conforme a Enciclopédia Itaú Cultural, o retrato era constante. Eram em maior parte, composições simplificadas, com poucos elementos. Muitas vezes os retratados revelam a sensação de desalento, como ocorre em Menina Triste e Doente (1940). Se dedica também a auto-retratos, em que mostra admiração por Vincent van Gogh (1853/ 1890) e Paul Gauguin (1848/ 1903). Frequentemente, se representa como trabalhador manual, como a lembrar sua origem humilde.

Na década de 1940, pinta paisagens urbanas, em sua maioria realizadas em cores escuras, com predominância de tons ocre e marcadas por grande melancolia, são exemplos O Chão (1941) ou Pátio da Rua de Santana (1944). Nessas paisagens e também em algumas naturezas-mortas revela interesse pelas obras de Paul Cézanne (1839/ 1906) e Henri Matisse (1869/1954). Em outros quadros, como Campos de Jordão (1944) utiliza nuances um pouco mais luminosas de verde e azul, embora em tons rebaixados, e explora a verticalidade dos troncos das árvores. As marinhas são a face mais conhecida de sua produção, nelas se refletem a experiência de marinheiro e o amor pelos diversos recantos do litoral: Itanhaém, Mangaratiba, Cabo Frio e Arraial do Cabo. Seus quadros são concebidos com grande simplificação formal, como, por exemplo, Cabo Frio (1947). Nele, Pancetti utiliza linhas em ziguezague, diagonais que percorrem o espaço pictórico e são um recurso constante. Em 1950, viaja para a Bahia, onde fixa residência. A obra se modifica, a paleta adquire cores quentes e fortes.

JOSÉ Pancetti: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2.020.

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1334/jose-pancetti

Escrito por:

Francisco Lima Neto/AAN