Publicado 18 de Dezembro de 2020 - 13h48

Por AFP

O Brasil é reconhecido internacionalmente por sua capacidade de imunizar seus mais de 210 milhões de habitantes, mas está ficando para trás na corrida pela vacinação contra o novo coronavírus, em meio à gestão caótica da pandemia do governo de Jair Bolsonaro.

O presidente, que na terça-feira reiterou que não pensa se vacinar, lançou na quarta um plano para imunizar mais de 70% dos cidadãos do país, que soma quase 185.000 mortos pela covid-19, sendo superado apenas pelos Estados Unidos.

Bolsonaro admitiu que a pandemia, à qual qualificou de "gripezinha", "aflige" os brasileiros. Na quinta, ele determinou o desbloqueio de 20 bilhões de reais para a compra de vacinas, em um momento em que o país vive uma retomada da pandemia, superando nesse dia as 1.000 mortes em 24 horas pela primeira vez desde o fim de setembro.

Porém, esses esforços parecem encontrar seu antídoto no próprio Bolsonaro.

Na mesma quinta-feira, o ex-capitão do Exército voltou a dizer que não seria vacinado e continuou a gerar dúvidas, recorrendo ao repertório do absurdo, sobre os efeitos colaterais das vacinas, começando pela Pfizer/ BioNTec, cujo imunizante já está sendo aplicado ou foi autorizado no Reino Unido, Estados Unidos, México e pela União Europeia.

"Lá no contrato da Pfizer, está bem claro nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu", disse.

A opinião parece encontrar eco. O percentual de brasileiros que desejam se vacinar caiu de 89% em agosto para 73% em dezembro, segundo pesquisa do Datafolha.

Diante desta campanha anti-vacina, O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu na quinta-feira que os governadores podem determinar a obrigatoriedade do imunizante.

Segundo especialistas consultados pela AFP, o plano de Bolsonaro chega tarde e possui lacunas, entre elas a data de início da vacinação ou uma estratégia detalhada de compra e distribuição de imunizantes em um país de dimensão continental.

O governo negocia cerca de 360 milhões de doses de vacinas para 2021, entre elas 210 milhões do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca e a Fundação Oswaldo Cruz, em teste no Brasil; 42 milhões do conglomerado internacional Covax e mais de 70 milhões da Pfizer-BioNTech (EUA/Alemanha).

Mas, por enquanto, nenhuma delas, nem a CoronaVac (em fase de teses em São Paulo), elaborada em colaboração entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan, pediram autorização para uso emergencial ou generalizado junto à Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).

"Bolsonaro perdeu muito tempo com seu negacionismo, com suas disputas políticas com os governadores pelas medidas de quarentena, com sua campanha contra a vacina e sua obrigatoriedade", diz o infectologista José David Urbáez, da Câmara Técnica de Infectologia do Distrito Federal.

"Para fazer andar um programa assim, era preciso ter negociado com as farmacêuticas muito antes. No caso da Pfizer/BioNTech, a primeira lançada, muitos países, inclusive na América Latina, chegaram antes", acrescenta.

"E deveria ter previsto tudo muito antes, da compra de seringas ou algodão à definição da cadeia de frio e os recursos humanos que serão mobilizados", reforça.

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