Publicado 17 de Dezembro de 2020 - 15h12

Por AFP

Grande potência do esporte mundial acusada de uma série de ações irregulares e doping institucional, a Rússia foi excluída por dois anos das principais competições internacionais, incluindo as Olimpíadas de verão, marcadas para Tóquio no ano que vem, os Jogos de Inverno, em Pequim em 2022, e a Copa do Mundo de futebol, no Catar, também em 2022, anunciou nesta quinta-feira a Corte Arbitral do Esporte (CAS).

A Rússia poderá voltar aos Jogos Olímpicos de Paris em 2024, ao contrário do que exigia a Agência Mundial Antidoping (WADA), que defendia a suspensão por quatro anos.

"A WADA está feliz por ter vencido este caso que fará história", afirmou o presidente da entidade, Witold Banka.

A CAS "confirmou claramente nossas conclusões, segundo as quais as autoridades russas manipularam as amostras do laboratório de Moscou, com o objetivo de disfarçar um programa de doping institucionalizado", acrescentou.

Após quatro dias de audiência a portas fechadas no início de novembro, os três juízes nomeados pela CAS na cidade suíça de Lausanne deram seu veredicto em uma sentença de mais de 180 páginas, uma decisão sem precedentes na história da justiça esportiva.

As "consequências" da trapaça russa "não são tão contundentes como a WADA pretendia", reconheceram os juízes na sua decisão, que se justificaram dizendo que tinham "levado em consideração as questões da proporcionalidade e em particular a necessidade de promover uma mudança na cultura, encorajando a próxima geração de atletas russos a participar "limpos" de competições internacionais".

Nas Olimpíadas de verão em Tóquio e de inverno na China, os atletas russos só poderão competir sob bandeira neutra, mas terão que provar que nunca utilizaram substâncias proibidas.

Embora a suspensão valha até 16 de dezembro de 2022, seus efeitos sobre a Copa do Mundo que terminará no Catar dois dias depois não são claros: a declaração da CAS não especifica como sua sentença pode ser aplicada aos esportes coletivos.

Por outro lado, a CAS ordenou que a Rusada, a Agência Antidopagem Russa, pagasse 1,27 milhão de dólares à WADA para reembolsar as perícias realizadas desde janeiro de 2019 sobre a manipulação das amostras do laboratório de Moscou.

Fundada em 1999 na esteira do escândalo do doping no ciclismo, a WADA fez um grande esforço na investigação e sua credibilidade estava em jogo no momento em que os Estados Unidos ameaçavam cortar a ajuda e acabam de aprovar uma lei que lhe permite liderar a sua cruzada mundial contra o doping.

Por sua vez, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e as Federações aguardavam diretrizes claras da CAS, sete meses antes dos Jogos de Tóquio, para evitar as incertezas.

Pouco antes dos Jogos do Rio de 2016, a WADA recomendou a exclusão de atletas russos, medida que foi rejeitada pelo COI, enquanto alguns dias antes do início dos Jogos de Inverno de Pyeongchang em 2018, a CAS exonerou 28 atletas russos suspensos pelo COI.

Mas o enquadramento legal é mais claro nesta ocasião, pois se tratava de validar ou não o conjunto de sanções propostas em dezembro de 2019 pela WADA e rejeitadas pela Rusada, devido à manipulação dos arquivos de computador do laboratório antidoping de Moscou no período entre 2011 e 2015.

Esta fraude nos registros guardados nos computadores deu mais trabalho à WADA porque o essa queda de braço com os russo durava desde 2010, envolvendo os serviços secretos e o Ministério dos Esportes do país, além de alimentar tensões entre Moscou e as autoridades desportivas, tidas como instrumentos do Governo local.

"Nossos atletas são impedidos, por meios não muito esportivos, de alcançar o sucesso que merecem", declarou o presidente russo, Vladimir Putin, em outubro.

Há dez anos, a corredora russa de meia distância Yuliya Stepanova e seu marido Vitaly, um ex-funcionário da Rusada, alertaram a WADA sobre o doping institucionalizado na Rússia, e então denunciaram no canal alemão ARD, que exibiu em dezembro de 2014 uma série de reportagens sobre o assunto.

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