Publicado 17 de Dezembro de 2020 - 11h47

Por AFP

Héctor Retamal, fotógrafo chileno da AFP em Xangai, foi escolhido nesta quinta-feira (17) o melhor fotógrafo de agência de notícias de 2020 pelo jornal The Guardian por seu trabalho na China, principalmente pelas suas imagens de Wuhan, cidade onde foram detectados os primeiros casos de covid-19.

Héctor relatou sua cobertura em um blog da AFP, com o título "Quatro estações em Wuhan", no qual detalhou suas viagens à cidade, antes, durante e depois do surgimento da pandemia.

Essas são suas impressões, que também podem ser lidas na página https://focus.afp.com/cuatro-estaciones-en-wuhan acompanhadas por suas fotos.

Ele visitou Wuhan uma vez antes do vírus, para cobrir um jogo de basquete. A cidade é enorme. Onze milhões de pessoas vivem lá, mais que os habitantes da Cidade do México, Nova York ou Paris.

Meus familiares do Chile - minha mãe, meu primo e sua namorada - estavam de visita em Xangai quando ouvi falar pela primeira vez sobre o vírus em meados de janeiro. Me preocupei um pouco com a saída deles da China e o retorno para casa. Logo depois, as máscaras começaram a aparecer nas ruas. Em poucos dias, qualquer um podia sentir que algo grave estava chegando.

Fui à estação de trem para viajar para Wuhan. Meus chefes me ligaram, tinham dúvidas se a missão era perigosa demais. Eu insisti em ir. Lembrei a eles que cobri uma epidemia de cólera no Haiti. Só fui compreender a seriedade da situação quando o trem de alta velocidade chegou quatro horas depois em Wuhan. Era a última parada, mas quase ninguém desceu: apenas umas 30 ou 40 pessoas, ao invé de centenas. Eu estava entre elas, chegando em uma cidade fantasma, onde me reuni com Leo Ramírez e Sébastien Ricci, do escritório de Pequim.

O medo já tomava conta dos habitantes de Wuhan. Policiais pediram para voltarmos ao hotel. "É perigoso ficar nas ruas", alertaram. O medo pairava no ar. Vi pessoas trancadas em suas casas, observando pelas grades nas janelas. Em duas horas de caminhada por esse bairro vi apenas quatro ou cinco pessoas na rua.

Mas o choque só chegou quando fomos aos hospitais. As pessoas faziam fila dentro e fora, algumas sentadas em cadeiras que levavam consigo. As pessoas vinham até mim e seguravam meu braço, pedindo que eu entrasse para ver. Queriam me mostrar o que estava acontecendo.

Isso raramente acontece na China. Hesitei em segui-los, por medo de que os seguranças me vissem e chamassem a polícia, mas entrei mesmo assim e vi como a situação era difícil. Os hospitais estavam claramente saturados.

Então, tirei esta foto:

Nunca conseguimos averiguar a causa da morte deste homem mais velho, apesar de tentarmos. Seu corpo ficou por horas no chão até alguém removê-lo. A imagem do corpo e a agitação ao seu redor acabaram por simbolizar a crise do coronavírus.

Saímos da cidade em 31 de janeiro, em um voo humanitário enviado pela França com destino a Marselha. Passamos duas semanas em quarentena na França.

Voltei a Xangai em 24 de fevereiro. Fiquei alguns dias em um hotel enquanto investigava qual era a situação no prédio onde moro e se teria que voltar a ficar em quarentena. Felizmente não precisei. Quando retornei ao meu apartamento, os membros de um "comitê de bairro" me interrogaram. Para entrar no prédio, teria que passar uma medição de temperatura.

Voltei a Wuhan no final de março, dias antes de a cidade encerrar seu confinamento em massa. Algumas pessoas continuaram trancadas em casa: ainda não se atreviam a sair. Vi pessoas que lhes passavam refeições através das barreiras de segurança. Mas pouco a pouco, a vida foi voltando à normalidade. Os profissionais da saúde que tinham vindo de outras partes do país para ajudar foram embora para suas cidades de origem.

Wuhan é uma encruzilhada no coração da província de Hubei: une o leste com o oeste da China e o norte com o sul. A cidade está localizada às margens do grande rio Yangtze, a meio caminho entre Pequim e Guangzhou, no sul. Wuhan é uma cidade relativamente rica, com dezenas de laboratórios e centros de pesquisa científica. Há empresas de mineração, fábricas de automóveis, aço, têxteis. Também é um grande centro agrícola: algodão, cereais, piscicultura. Hubei é conhecida como a "terra do peixe e do arroz", à sombra da grande barragem das Três Gargantas.

O melhor lugar para ir lá é a margem do rio. A vida da cidade parece construída ao redor dessa corrente d"água. Eu fui lá muitas vezes.

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AFP