Publicado 17 de Dezembro de 2020 - 6h17

Por AFP

A imolação de um jovem há 10 anos em Sidi Bouzid foi o abriu o caminho da democracia para a Tunísia, mas esta cidade marginalizada que se transformou em berço da revolução não tem o desejo de festa.

Em 17 de dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante que não suportava mais a perseguição policial, ateou fogo ao coro na principal rua da cidade do centro da Tunísia, o que deu início a um movimento de protesto sem precedentes.

A revolta deixou quase 300 mortos no país. As manifestações provocaram a queda do presidente Zine el Abidine Ben Ali em 14 de janeiro de 2011 e se propagaram para outros países da região, onde vários autocratas foram obrigados a deixar o poder.

A democratização da Tunísia é uma conquista, mas o ambiente festivo inicial não existe mais.

Em Sidi Bouzid, uma imagem gigante de Bouazizi e a escultura de sua carroça no centro da cidade não representam mais a esperança de avanço social.

O dia 17 de dezembro virou uma ocasião para protestar contra um governo incapaz de alcançar alguns objetivos da revolução: trabalho e dignidade. Há alguns anos, ministros foram recebidos a pedradas na cidade.

"Preparamos o caminho para a liberdade, mas vocês desviaram", afirmam cartazes no centro da cidade.

Nenhuma visita oficial foi programada para a data. O presidente Kais Saied, um acadêmico que reivindica os ideais da revolução, eleito em outubro de 2019 em um contexto de rejeição aos líderes que estavam no poder desde 2011, anunciou que não viajaria à cidade, oficialmente por "compromissos urgentes".

"O ambiente não é de celebração (...) porque se constata que o país está mal", explica o cientista político Hamza Meddeb.

"É verdade que o país construiu a duras penas uma democracia, é verdade que avançou nas liberdades políticas, mas 10 anos depois da revolução de 17 de dezembro a 14 de janeiro se constata um fracasso", completa.

Os políticos, mais fragmentados do que nunca desde as eleições legislativas de 2019, não conseguem passar à ação em um cenário de crescente necessidade social, agravada pelas consequências da pandemia do novo coronavírus.

O desemprego supera 15% e afeta os jovens e as regiões maias afastadas. Os salários, baixos, são corroídos pela inflação e a instabilidade política aniquila a esperança de reformas profundas.

Milhares de jovens viajaram para lutar com os grupos extremistas na Síria e os tunisianos representam atualmente metade dos migrantes que chegam à Itália.

Em Sidi Bouzid um palco foi montado para um show de rap, com o lema "10 anos, a espera é longa".

"Este evento, que mostra a importância da revolução para nós, não esconde a raiva com a classe política", declarou à AFP Youssef Jilali, porta-voz dos organizadores.

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