Publicado 16 de Dezembro de 2020 - 21h17

Por AFP

A obsessão da cientista húngara Katalin Kariko em pesquisar uma substância chamada mRNA para combater doenças custou a ela uma posição no corpo docente de uma prestigiosa universidade dos Estados Unidos, que considerava a ideia um beco sem saída.

Agora, seu trabalho pioneiro - que abriu caminho para as vacinas da Pfizer e da Moderna contra a covid-19 - pode ser o que vai salvar o mundo de uma pandemia de 100 anos.

"É simplesmente inacreditável", disse ela à AFP em uma videochamada de sua casa na Filadélfia, acrescentando que não estava acostumada com a atenção após trabalhar por anos na obscuridade.

Isso mostra por que "é importante que a ciência seja apoiada em muitos níveis".

Kariko, de 65 anos, passou grande parte da década de 1990 redigindo pedidos de bolsas para financiar suas pesquisas sobre o "ácido ribonucleico mensageiro" - moléculas genéticas que informam às células quais proteínas produzir, essenciais para manter nossos corpos vivos e saudáveis.

Ela acreditava que o mRNA era a chave para o tratamento de doenças em que ter mais do tipo certo de proteína pode ajudar - como reparar o cérebro após um derrame.

Porém, a Universidade da Pensilvânia, onde Kariko estava prestes a se tornar professora titular, decidiu pôr fim ao projeto depois que as recusas de financiamento se acumularam.

"Eu estava concorrendo a uma promoção, mas eles simplesmente me rebaixaram e esperaram que eu fosse embora", contou ela.

Kariko ainda não tinha um "green card" (residência permanente nos EUA) e precisava de um emprego para renovar seu visto. Também sabia que não seria capaz de colocar sua filha na faculdade sem o desconto para funcionários.

Ela decidiu, então, persistir como pesquisadora do escalão inferior, sobrevivendo com um salário ínfimo.

Foi um ponto baixo em sua vida e carreira, mas "eu só pensei... Sabe, a bancada (do laboratório) está aqui, eu só preciso fazer experimentos melhores", disse.

A experiência moldou sua filosofia para lidar com as adversidades em todos os aspectos da vida. "Pense bem e, no final, você tem que dizer "o que posso fazer?"", reflete Kariko. "Porque assim você não desperdiça sua vida."

A determinação está na família - sua filha, Susan Francia, de fato estudou na Universidade da Pensilvânia, onde fez um mestrado, e ganhou medalhas de ouro com a equipe olímpica de remo dos Estados Unidos em 2008 e 2012.

Dentro do corpo, o mRNA entrega às células as instruções armazenadas no DNA, as moléculas que carregam todo o nosso código genético.

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