Publicado 16 de Dezembro de 2020 - 14h47

Por Estadão Conteúdo

Os hospitais do País identificam um movimento claro dos pacientes nos últimos meses. De um lado, aumento nas internações por doenças infecciosas, principalmente, a covid-19. De outro, queda nos tratamentos de cânceres, enfarte, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, dentre outras. Nesse cenário, a taxa de ocupação das unidades hospitalares caiu entre 2019 e 2020, o que comprometeu a saúde financeira. Para o ano que vem, as perspectivas são de um ano difícil, que será definido pela amplitude do programa de vacinação contra a covid-19 e pelo comportamento da população.

Esse é o balanço de 2020 feito pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) em documento divulgado nessa terça-feira, 15. A entidade que reúne 120 dos principais hospitais brasileiros identifica leve recuperação do setor no 3º trimestre, mas os números ainda estão abaixo de 2019. A ocupação de leitos pela covid ocorreu em menor intensidade do que o adiamento dos tratamentos e das cirurgias eletivas.

Os hospitais registraram queda de 5,6% no Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização). De janeiro a outubro de 2019, o índice foi de 13,4%. No mesmo período de 2020, ele chegou a apenas 7.8%. O médico Ary Ribeiro, presidente da Anahp, explica que dois fatores explicam a queda. O primeiro deles é a diminuição das taxas de ocupação dos hospitais, que passaram de 78% em 2019 para 66% neste ano.

Outro fator é o aumento dos custos para o enfrentamento da pandemia. Em abril, o balanço do setor apontou despesas maiores que as receitas, por exemplo. "A primeira parte do ano, até o primeiro trimestre, foi marcada pela evolução da demanda hospitalar. A partir de meados de março, o ano foi outro, caracterizado pelo impacto da pandemia. Tivemos um impacto financeiro significativo. Os hospitais ainda não se recuperaram", diz o especialista.

No Hospital Albert Sabin de São Paulo, esse impacto foi uma queda de 8% do faturamento, revela a diretora clínica Luciana Pasin Alves. Na unidade, a taxa de ocupação caiu de 87,13% no ano passado para 75,36% neste ano. "Isso acontece em decorrência da queda de ocupação e da diminuição das cirurgias eletivas", diz a especialista. "O paciente de covid tem que ficar em isolamento. Isso implica na redefinição do fluxo de atendimento e dos quartos no hospital. Por isso, a ocupação também cai. Você não consegue ocupar todos os leitos", completa Luciana Pasin Alves.

Pesquisa feita pela própria Anahp com dirigentes do mercado, também divulgada nessa terça-feira, aponta que o cenário atual é de uma recuperação tímida. Para 73% dos entrevistados, embora tenha havido uma retomada nos procedimentos eletivos, o número ainda é inferior ao cenário anterior à pandemia.

Esse momento de retomada se reflete em outros indicadores, como o mercado de trabalho, por exemplo. Em setembro, o segmento privado impulsionou o crescimento de empregos na saúde, de acordo com o Relatório de Emprego na Cadeia Produtiva da Saúde do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). O saldo de emprego da cadeia de saúde foi de 6.705 novas vagas. De janeiro a setembro, o saldo é de 87,5 mil postos de trabalho. Isso indica a necessidade constante de contratações no mercado de saúde ao longo da pandemia, mesmo com a queda de casos e internações nos últimos meses.

Para 2021, o cenário ainda é de incerteza. O motivo é o recrudescimento da pandemia. Quando questionados sobre eventual "segunda onda" no País, 95% dos entrevistados responderam que existe essa possibilidade. "O ano de 2021 ainda será difícil. Ainda é incerto fazer uma previsão sobre o que vai acontecer. É preciso avaliar a dinâmica da pandemia, a procura aos atendimentos hospitalares e o impacto da vacinação no comportamento das pessoas", diz Ribeiro.

As taxas de vacinação que o País vai alcançar serão fundamentais no futuro, diz o economista de saúde André Medici. "Se o Brasil conseguir vacinar entre 60% e 70% da população, isso pode trazer uma sensação de volta à normalidade. Mas o cenário ainda não está claro", acrescenta Médice, que também é consultor internacional da Anahp.

Diante das incertezas, a pesquisa revela certo otimismo dos dirigentes: 49% dos entrevistados apostam que as receitas devem se manter estáveis no ano que vem; outros 35% acreditam em crescimento, enquanto 15% preveem nova queda do faturamento.

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