Publicado 16 de Dezembro de 2020 - 10h37

Por AFP

Uma mangueira expele um poderoso jato d"água diante de Alfredo Araya, poucos dias depois que uma gigantesca broca atingiu um veio subterrâneo. Diante de um serviço deficitário, a perfuração de poços ganha força em Caracas.

Perfurar o aquífero de 90 metros de profundidade pode custar até cerca de US$ 20.000 na capital venezuelana, de sete milhões de habitantes. Um gasto que os moradores dos prédios e ruas beneficiados "pagam juntos", explicou Araya, um engenheiro civil de 68 anos dedicado a este negócio.

É o caso, por exemplo, de Dalila Escalona, que investiu US$ 400 de suas economias em uma coleta para um poço no edifício donde vive, no bairro nobre caraquenho de Los Palos Grandes.

"Estamos fazendo um grande sacrifício (...). A arrecadação não foi fácil", diz esta arquiteta de 59 anos.

Em uma Venezuela em crise perene, com três anos de hiperinflação e sete de recessão, o salário mínimo e o bônus de alimentação complementar chegam a pouco mais de US$ 2 por mês.

O Observatório de Serviços Públicos (OVSP, privado) estima que quase nove em cada dez venezuelanos sofrem interrupções no abastecimento de água. Há comunidades que passam meses sem receber uma única gota.

De acordo com o OVSP, 56,7% dos cerca de 30 milhões de habitantes do país são obrigados a armazenar água em galões e garrafas vazias em suas casas, enquanto 18,5% pagam por caminhão-pipa.

Sob o vale de Caracas, há "um enorme reservatório de água", devido às infiltrações de chuvas e riachos que nascem em El Ávila, a montanha que circunda a cidade, disse à AFP José María de Viana, ex-presidente da companhia de água Hidrocapital (1992 -1999).

Amplas áreas da capital foram abastecidas com essa "reserva" nas décadas de 1950 e 1960, relata De Viana, mas os sistemas de distribuição Tuy I, Tuy II e Tuy III, este último concluído em 1980, deslocaram as perfurações.

Administrada pela estatal Hidrocapital, essa rede abastece a cidade a partir de reservatórios a quilômetros de distância.

A deterioração das estações elevatórias colocou em xeque este serviço, que também depende de gigantescas injeções de recursos públicos. Na era chavista, iniciada em 1999, o serviço acabou sendo praticamente gratuito.

Há 20 anos, lembra De Viana, Caracas recebia 20 mil litros de água por segundo e, hoje, recebe menos 8 mil.

Com esse déficit, a competição entre as empresas perfuradoras, antes procuradas por fazendas da província, é voraz na capital. Na pandemia, essa demanda se multiplicou.

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