Publicado 17 de Novembro de 2020 - 7h53

Por Estadão Conteudo

Presidente Jair Bolsonaro defende emenda à Constituição para modificar o sistema eleitoral no Brasil, com a introdução do voto impresso

Marcos Corrêa/PR

Presidente Jair Bolsonaro defende emenda à Constituição para modificar o sistema eleitoral no Brasil, com a introdução do voto impresso

Depois de poucos dos seus candidatos apadrinhados terem tido sucesso nas eleições municipais, o presidente Jair Bolsonaro colocou em xeque, mais uma vez, a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Para apoiadores, ele voltou a citar ontem o uso do voto impresso ao justificar que é preciso um sistema que "não deixe dúvidas" ou "margem para suposições".

"Nós temos que ter um sistema de apuração que não deixe dúvidas. É só isso. Tem que ser confiável e rápido, não deixar margem para suposições", disse. Na sequência, Bolsonaro mencionou desconhecer o uso do sistema eleitoral brasileiro, apurado por meio de urna eletrônica, em outros países no mundo. Ao todo, contando com o Brasil, 46 países utilizam algum tipo de votação eletrônica em eleições, considerando pleitos de caráter nacional, regional ou para escolha de dirigentes sindicais.

"Tenho proposta, tive né. O Supremo Tribunal Federal disse que é inconstitucional o voto impresso. Mas tem proposta de emendar a Constituição na Câmara. Se não tivermos uma forma confiável de apurar as eleições, a dúvida sempre vai permanecer e nós devemos atender a população", disse.

O presidente disse que a demanda por mudanças no sistema eleitoral do País vem do "povo". "Muita gente fala, alguns falam, sem ouvir o povo, sem sair de seus gabinetes. No meu caso, estou sempre ouvindo a população. Eles querem um sistema de apuração que possa demorar um pouco mais, não tem problema nenhum, mas que seja garantido que o voto que essa pessoa deu vá para aquela pessoa realmente de fato. É só isso", declarou.

Bolsonaro disse, em março, que "brevemente" apresentaria provas de que houve uma "fraude" nas eleições de 2018, mas até agora não mostrou nenhuma evidência.

Na semana passada, Bolsonaro já havia dito, sem provas, que o sistema de votação no Brasil não era "sólido" e que era "passível de fraude". Em declarações anteriores, Bolsonaro tem defendido a volta do voto impresso para o pleito de 2022.

Na conversa com apoiadores ontem, Bolsonaro pediu desculpas por estar indisposto, após uma noite mal dormida, e se negou a gravar vídeos e mensagens com o grupo em frente ao Palácio da Alvorada. "Peço, por favor, eu não quero gravar nada. Não estou passando bem hoje não, desculpa aí, fui dormir agora", justificou. O presidente chegou ainda a responder um comentário de um apoiador que disse que a região Norte "é muito sofrida".

"Você fala região sofrida, mas o povo de lá escolhe o seu destino", respondeu Bolsonaro. Em seguida, citou que São Paulo e Rio de Janeiro estão "decidindo seu destino", assim como Porto Alegre. Depois, Bolsonaro encerrou a conversa com a claque agradecendo e pedindo desculpas mais uma vez.

Atraso na apuração

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, afirmou ontem que o atraso nas apurações da eleição de domingo foi provocado pela ausência de testes prévios no supercomputador que realiza a totalização dos votos pelo Tribunal.

O computador foi adquirido em março pelo TSE, mas entregue apenas em agosto em razão da pandemia do novo coronavírus, o que impossibilitou a realização de todos os testes. Inicialmente, no domingo, Barroso havia afirmado que o atraso na totalização de votos foi provocado por uma falha em um dos oito núcleos de processadores do computador.

Apesar da demora, Barroso tentou afastar suspeitas sobre a possibilidade de fraude nos resultados. Segundo ele, não é possível que haja fraude porque os resultados em cada urna são impressos em um boletim, ao final da votação, afixados na seção eleitoral e distribuídos aos partidos.

Mourão elogia sistema eletrônico brasileiro

O vice-presidente Hamilton Mourão avaliou ontem que, mesmo com atraso na totalização dos votos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o sistema brasileiro é "muito bom, sem dúvida nenhuma". Ele ponderou, contudo, que a dinâmica eleitoral do Brasil não pode ser comparada à norte-americana. "Tem uma série de itens (no processo de votação americano) que uma mera urna eletrônica não daria certo. São processos diferentes, mas o nosso processo é muito bom, sem dúvida nenhuma", comentou.

Mourão afirmou que os "grandes vencedores" das eleições municipais, até o momento, foram os partidos de centro, caracterizados por candidatos "mais tradicionais e mais conhecidos". Apesar disso, ele avaliou que o resultado das eleições não indica um possível enfraquecimento do movimento conservador ou do capital político do presidente Bolsonaro.

O vice-presidente também minimizou o mau desempenho nas urnas da maioria dos candidatos apoiados por Bolsonaro e que não se elegeram. "Não pode se debitar nada em relação ao presidente Bolsonaro porque ele não entrou de cabeça nessa eleição. Ele apoiou alguns candidatos, muito poucos. O presidente está sem partido e, sem uma estrutura partidária, fica difícil você participar de uma eleição", afirmou.

59 candidatos recebem apoio; só 9 são eleitos

Dos 59 candidatos apoiados no "horário eleitoral gratuito" de Jair Bolsonaro, somente sete vereadores e dois prefeitos foram eleitos nas eleições deste domingo. Além disso, só dois candidatos a prefeito foram para 2º turno.

Bolsonaro fez campanha em suas redes sociais para 45 candidatos a vereador, dos quais, apenas sete se elegeram. Entre os derrotados, estão quatro que tiveram um empenho extra do presidente, como a sua ex-assessora Wal do Açaí (Republicanos), em Angra dos Reis; Deilson Bolsonaro, em Boa Vista; Clau de Luca (PRTB) e Sonaira Fernandes (Republicanos), em São Paulo. O quarteto foi mencionado diversas vezes nas transmissões ao vivo.

Ao pedir votos, o presidente chegou a dizer que era "apaixonado" por Sonaira e Clau. A primeira trabalhou no gabinete de Eduardo Bolsonaro, a segunda se aproximou do presidente nas eleições e é ativa nas redes sociais. Bolsonaro chegou a dizer que ficaria mal para ele se elas não se elegessem.

"Olha pessoal, tem que eleger essas vereadoras aqui, se não vai pegar mal pra mim pra caramba. Não eleger prefeito é normal, porque a barra é pesada e lá não temos como ajudá-lo", disse Bolsonaro, em live. O apelo foi insuficiente. Sonaira teve 17.868 votos, e Clau de Luca 5.788.

Bolsonaro também mostrou apoio para sua ex-assessora Walderice Santos da Conceição, a Wal do Açaí. Ela concorreu ao cargo de vereadora em Angra dos Reis com o nome de Wal Bolsonaro, mas só obteve 266 eleitores. Na campanha, Bolsonaro negou que Wal tenha sido sua "funcionária fantasma". Ela se demitiu após reportagem da Folha de S. Paulo, em 2018, apontar que ela trabalhava vendendo açaí, enquanto era nomeada no gabinete do então deputado federal.

Entre 13 candidatos a prefeito que tiveram votos pedidos por Bolsonaro, passaram ao 2º turno apenas Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio, e Capitão Wagner (PROS), em Fortaleza. O ex-senador Mão Santa (DEM) foi reeleito prefeito em Parnaíba, no Piauí, e Gustavo Nunes (PSL) conquistou a prefeitura em Ipatinga, em Minas Gerais.

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