Publicado 17 de Novembro de 2020 - 19h05

Quando o hoje famoso escritor e membro da Academia Campinense de Letras Carlos Alberto Marchi de Queiroz era um jovem delegado atendeu, durante plantão, um homem que começou assim:

- Doutor, o problema é o seguinte: minha mulher tem um amante.

O ainda não muito experiente, mas já astuto policial, fechando o livro que estava lendo, murmura:

- Um amante?

- Sim, doutor, amante. E eu preciso lavrar um flagrante.

- Flagrante?

- De adultério.

- Bem – Queiroz coça a ponta do nariz – esse é um caso sério.

- Seríssimo, doutor.

- Mas como foi isso, meu amigo?

- Recebi denúncia.

- Sabe o que a experiência me tem ensinado? Nem sempre se deve confiar em denúncias.

- Mas, delegado, entenda o meu drama.

- É justamente isso que quero fazer. Quando você falar melhor da tal denúncia.

- Hoje de manhã – o camarada exibia certo tremor nas mãos, evidente nervosismo – hoje de manhã recebi um telefonema.

- De alguém conhecido?

- Não, anônimo.

- Pois este é o grande perigo. Denúncias anônimas são sempre perigosas...

- Tudo bem, pode até ser. Só que, no presente caso, tenho detalhes. Ricos detalhes.

- Pode exemplificar?

- Aqui está – ele retira do bolso um papel – veja isso.

- “Amor Perfeito” - Queiroz lê em voz alta – do que se trata?

- É o nome do motel onde minha mulher está neste momento, em companhia do amante.

- E como você pode ter certeza?

- É que, antes de mais nada, recebendo a denúncia, corri pra casa. Larguei o trabalho e fui lá. De fato, minha mulher não estava. Chamei a empregada e perguntei por ela.

- Não me diga que você recebeu a informação de que sua esposa fora ao dentista?

- Exatamente, doutor, como o senhor conseguiu adivinhar?

- Ora, meu amigo, não é de ontem que estou sentado nesta mesa. Mulher que trai, em grande percentual, sempre usa a desculpa de que vai ao dentista...

- Pois é... E, por ironia, uma das únicas coisas que a minha mulher não está precisando é de odontólogos. Pois ela possui dentes perfeitos. Nunca, jamais, em tempo algum teve uma cárie sequer.

- Então muito bem – o delegado junta as mãos – se o problema é o flagrante, vamos faze-lo.

- Só nós dois?

- Não, levaremos testemunhas.

- Mas nada de violências, não é, doutor?

- Isso sou eu que digo a você. A propósito, está armado?

- Sou um homem de paz, delegado. Não carrego comigo nem canivete.

- Ainda bem, pois emoções fortes podem levar a besteiras...

- Eu tenho a cabeça feita, doutor.

- Assim espero. Aliás, ainda há algo que preciso lhe dizer.

- O que o senhor quiser.

- Não é nada fácil encarar um problema igual ao seu.

- No duro no duro sei que vou tirar um peso da minha consciência. Afinal, não é de hoje que recebo as denúncias.

- Você não havia citado este detalhe.

- Pois é, volta e meia vinham telefonemas, bilhetes, recados, o diabo. Só que nunca liguei.

- E desta vez, por que ligou?

- É que a voz do cara que me deu a triste notícia inspirava confiança. Ele dava a impressão de estar solidário comigo.

- Talvez até seja algum amigo seu.

- Pode ser. Mas a voz parecia de um sacerdote, um padre.

- Muito bem – o delegado levanta – acho que chegou a hora de encarar a realidade.

- E as testemunhas?

- Vamos levar o escrivão e um investigador.

Cerca de meia hora depois a tropa chegava diante de um motel, ali para os lados da estrada de Mogi. Quando param quase na frente de um dos chalés, o angustiado marido avista, parado na porta, justamente o carro de sua mulher, mesma marca, mesma cor, mesma placa. Súbito, o homem recua. Agarra-se ao braço do delegado Queiroz:

- Doutor, pelo amor de Deus, vamos embora. Não tenho coragem. Amo demais minha mulher; sou tão louco por ela que acabo de descobrir: não me importa ser corno!

Rapidamente, sem mais delongas, todos deram meia volta e foram embora. E logo depois, regressando à sua casa, o marido sentou na sala, olhando para o nada. Quando a esposa chega pergunta, num fio de voz:

- Onde você estava, querida?

Ao que ela responde, secamente, já a caminho do quarto:

- No dentista...