Publicado 18 de Novembro de 2020 - 10h15

Por AFP

Calábria, entre as regiões mais pobres do sul da Itália, preocupada com a segunda onda do coronavírus, está ingovernável após a terceira renúncia em dez dias do responsável para combater a pandemia.

Nomeado pelo governo, Eugenio Gaudio, médico e ex-reitor da renomada Universidade La Sapienza romana, renunciou na terça-feira (17) alegando que sua esposa não queria se mudar para Calábria, classificada como área vermelha devido ao aumento de casos e à fragilidade do sistema de saúde.

Apesar de registrar apenas 187 mortes durante a segunda onda da doença, das 46.000 em todo o país desde o início da pandemia em março, Calábria - região conhecida pela "Ndranghetta, a temida máfia especializada em tráfico de drogas com ramificações na América Latina - é um dos maiores desafios para o atual governo liderado por Giuseppe Conte.

A demissão de Gaudio juntou-se à rede de renúncias em poucos dias de designados como responsáveis do setor de saúde da região, o que obrigou Conte a pedir desculpas ao país.

"Sinto muito, os calabreses merecem uma resposta depois de tantos anos de má gestão do sistema de saúde", admitiu em uma entrevista ao jornal La Stampa, publicada nesta quarta-feira.

"Assumo toda a responsabilidade", disse ao referir-se às nomeações de Gaudio, Saverio Cotticelli, um ex-general dos carabineiros e Giuseppe Zuccatelli, estes dois últimos envolvidos em polêmicas relacionadas à pandemia.

"Chegou a hora de designar pessoas adequadas", anunciou Conte.

A região de Calábria, com escassez crônica de equipe médica, infraestruturas obsoletas, uma máfia poderosa envolvida nas licitações públicas, vive em estado de emergência desde 2010, governada por um comissário.

A maioria dos calabreses se vê obrigada a viajar para outras regiões para receber tratamentos médicos especializados.

Com o maior índice de desemprego do país, de 21% em 2019, com picos de 30,6% entre os jovens, tem a menor renda per capita da península.

O setor de saúde, que absorve metade do orçamento designado para toda a região, segundo os dados do jornal Il Corriere della Sera, representou por décadas o maior saque para a máfia.

"Calábria está há dez anos em emergência e a situação agora é dramática devido à pandemia", denunciou Emilio Viafora, presidente da Federconsumatori, uma das associações mais importantes para a defesa dos consumidores.

Diante de tal situação, Conte anunciou um acordo entre a Proteção Civil e a ONG Emergency, fundada pelo reconhecido médico milanês Gino Strada, quem trabalha há anos em zonas de guerra, para operar em Calábria.

"Um desafio inesperado para o fundador da Emergency, que aceita trabalhar em uma terra tão complicada e arriscada como o Afeganistão", escreveu o Il Corriere della Sera.

Emergency começará a trabalhar imediatamente com a instalação de hospitais de campanha, hoteis-covid e operações de triagem para a seleção e classificação dos pacientes.

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