Publicado 17 de Novembro de 2020 - 17h06

Por AFP

Uma faceta-chave na frenética luta global que a Pfizer, Moderna e outros grupos farmacêuticos travam para desenvolver uma vacina viável contra o coronavírus é o recrutamento de dezenas de milhares de voluntários dispostos a participar de testes clínicos.

A correspondente da AFP em Miami, Leila Macor, participou do estudo de fase 3 organizado pela Moderna, empresa de biotecnologia dos Estados Unidos, que anunciou na segunda-feira que sua vacina experimental contra a covid-19 é quase 95% eficaz.

Por que Macor, que sofre de asma, decidiu ser um dos 30.000 indivíduos do estudo da Moderna? Aqui ela relata sua experiência, que começou algumas semanas depois que seu próprio pai morreu de covid-19 no Chile.

Meu pai morreu três semanas antes do início dos testes clínicos da Pfizer e da Moderna, no final de julho. Ele morreu sozinho, como as pessoas vítimas deste vírus.

Enquanto meus irmãos, minha mãe e eu tentávamos lidar com a perda em nossos confinamentos em diferentes países, me deparei com outra realidade perigosa: Miami, e a Flórida em geral, se tornava o principal foco do vírus nos Estados Unidos. E meu trabalho era cobrir essa história.

A ideia de fazer algo ativamente para ajudar a derrotar essa praga me ofereceu um pouco de paz. Discuti isso com amigos e familiares e todos eles me ajudaram a concluir que, como sou asmática, o risco de um efeito colateral potencial da vacina não poderia ser maior do que o risco que eu correria se contraísse o coronavírus. E, então, decidi participar.

Dois dias depois de escrever uma matéria para a AFP sobre o início da fase 3 dos testes clínicos na Flórida, eu estava batendo na porta do centro de pesquisa novamente. Mas, desta vez, como objeto de estudo.

Os Research Centers of America, no subúrbio de Hollywood, ao norte de Miami, estavam desenvolvendo os testes da Pfizer e da Moderna. Eles alternavam. Um dia um, outro dia o outro.

Dezenas de outros centros de pesquisa no resto do país também recrutavam voluntários. Qualquer um podia se voluntariar, desde que as chances de contágio fossem altas: garçons, médicos, taxistas ou repórteres. Marquei uma consulta para uma terça-feira, que viria a ser em um dia da Moderna.

Eles colocaram um adesivo com meu nome na minha blusa e me levaram para um consultório, onde explicaram o que eu iria ler mais tarde em um documento de 22 páginas.

O teste consistiu em duas doses. Os voluntários receberiam 2.400 dólares ao longo dos dois anos de duração do estudo. Fomos avisados de possíveis efeitos colaterais, desde dor no local da injeção até febre e calafrios.

Os 30.000 indivíduos seriam divididos em dois grupos: metade receberia a vacina; a outra metade, o placebo.

"Nós mesmos não sabemos qual é qual", disse-me a enfermeira, quando procurei saber se cairia no grupo do placebo. Apenas a Moderna sabe, mas não antes de compilar e analisar seus dados.

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