Publicado 06 de Outubro de 2020 - 10h32

Por Estadão Conteudo

Após encontro com Toffoli e Gilmar Mendes, apoiadores consideram o café da manhã com Maia como a gota d'água

Reprodução/Redes Sociais

Após encontro com Toffoli e Gilmar Mendes, apoiadores consideram o café da manhã com Maia como a gota d'água

A indicação do desembargador Kassio Marques para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) fez crescer o cordão de antigos bolsonaristas que partiram para o confronto aberto com Jair Bolsonaro, acusando o presidente de "traição" aos compromissos assumidos na campanha de 2018. O anúncio provocou fortes críticas e uma onda de descontentamento, com ameaças de debandada e pressão para que Bolsonaro mude o nome do indicado.

O grupo dos desiludidos, já integrado pelos ex-ministros Sérgio Moro, Luiz Henrique Mandetta e Carlos Santos Cruz, tem se ampliado cada dia mais. Os ataques vêm agora de todos os lados, principalmente da ala "raiz" do bolsonarismo, e a hasthag #BolsonaroTraidor desponta com força nas redes sociais.

Empresários, evangélicos, militares e ativistas ideológicos apontam a escolha como um "grave erro" e oportunidade perdida de nomear um "conservador" para a vaga de Celso de Mello, que se aposentará no dia 13. “Vocês confiam ou não em mim?", perguntou Bolsonaro a apoiadores no Palácio da Alvorada.

O encontro de Bolsonaro na casa do ministro do STF Dias Toffolli, no sábado, com a presença de Marques e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, agravou a situação. O movimento Vem Pra Rua, que liderou os atos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), passou a defender a saída de Bolsonaro e decretou "luto" do Brasil com o governo.

"Na campanha, Bolsonaro prometeu enfrentar o sistema. No poder, Bolsonaro negociou a indicação de Kassio Nunes com Gilmar, Toffoli e Alcolumbre. Existe traição maior que essa?", pergunta o Vem Pra Rua nas redes sociais. O movimento começou a entoar a palavra de ordem "Fora, Bolsonaro" e está sugerindo protestos em todo o País no dia 25. "Falando sério. Precisamos pensar numa forma de acolher quem desembarca dessa canoa furada do bolsonarismo", diz mensagem do Vem pra Rua.

Bolsonaristas ligados ao mercado financeiro também deram sinais de desembarque do governo. O tom mais forte veio de quem apresentou a Bolsonaro o ministro da Economia, Paulo Guedes. "Hora de desembarcar. Acabou. Um erro dessa envergadura não se faz por acaso", disse Winston Ling, empresário e histórico partidário da causa conservadora.

Leandro Ruschel, consultor de investimentos e influente militante conservador abriu abaixo-assinado contra Kassio Marques, chamando a indicação de "tragédia". "Acabou, porra. Precisamos começar tudo do zero. O presidente deixa claro, com a decisão, que sua sustentação política se dará pelas forças que controlam o País desde 88, aglutinadas no Centrão, se afastando da militância conservadora que o elegeu".

A extremista Sara Giromini, que chegou a ser presa, acusada de organizar atos antidemocráticos, usou de ironia. "Que inveja tenho do Toffoli. Ele, pelo menos, ganhou abraço do Bolsonaro. Não reconheço Bolsonaro. Não sei mais quem é o homem que decidi entregar meu destino e vida para proteger o legado conservador.”

Para Gabriel Kanner, presidente do Instituto Brasil 200, que réune empresários que apoiam Bolsonaro, como Flávio Rocha, da Riachuelo, e Luciano Hang, da Havan, o cenário é de desolação. "Bolsonaro abre mão de boa parte de sua base conservadora, em troca da base do 'establishment', que controla o Brasil há décadas", disse.

‘Indicação pro Supremo é igual escalar a Seleção’, diz

O presidente Bolsonaro voltou a defender a indicação de Kassio Marques para o STF. "É muita crítica ai de quem eu tô indicando pro Supremo, ou não? É que indicação pro Supremo, para muita gente, ficou igual escalar a Seleção brasileira: todo mundo tem seu nome, e aquele que não entrou o nome dele reclama, ai começa a acusar o cara de tudo. Esse mesmo pessoal, no passado, queria que eu botasse o Moro", disse. O presidente afirmou que Marques é "católico e tem certa vivência na área militar". 

O presidente afirmou também que não foi o desembargador quem decidiu pela permanência do italiano Cesare Battisti no Brasil e que a decisão de Marques que derrubou a liminar que proibia compra de lagostas e vinhos caros no STF foi por uma questão jurídica. "Mentira aquela questão que votou para o Battisti ficar aqui, quem disso isso foi o STF, não foi ele, decidiu em 99. O negócio das lagostas: é que a liminar não pode proibir isso ou aquilo que o Supremo pode comprar. Tem que ver se o processo licitatório estava legal e estava legal", disse.

Bolsonaro falou que Marques não é comunista. "Acusa ele de comunista: 'Ah, ele trabalhou com o PT'. Pô, o Tarcísio trabalhou com o PT. Parece que o ministro da Defesa também trabalhou para o PT. Um montão de militar serviu no governo do PT."

Bolsonaro também respondeu às críticas de seus apoiadores sobre os encontros que teve com o ministro do STF, Dias Toffoli, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, no sábado, e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ontem pela manhã.

"Com quem eu tomei café agora, alguém sabe? Rodrigo Maia. E daí? Estou errado? Quem é que faz a pauta na Câmara?", disse Bolsonaro a apoiadores, no Palácio da Alvorada, quando um deles questionou se era difícil governar com o STF. "Não entro no detalhe, não entro no detalhe. É um Poder que respeito", disse. Bolsonaro informou que pode sancionar hoje o projeto que altera o Código de Trânsito Brasileiro, junto com Maia e Alcolumbre.

Um outro apoiador, então, afirmou que o presidente estava certo e acrescentou: "Isso é fazer política". "É facilitando a vida para o povo, em vez de 5 em 5 (anos), vai ser de 10 em 10 (anos)", respondeu Bolsonaro. Pela proposta aprovada, entre outras mudanças, a carteira de motorista passará a ter validade de 10 anos.

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